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Full text of "Poemas herói-cómicos portugueses; verbêtes e apostilas"

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Pimentel, Alberto 

Poemas her6i-c6micos 
portugueses 



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ALBERTO PIMENTEL 



bemas Herói-Cómicos 
Portugueses 

(VERBETES E APOSTILAS) 



EDITORES 

RENASCENÇA PORTUGUESA - PORTO 
ANNUARIO DO BRASIL — RIO DE JANEIRO 




ROBERT E. CAIVIN 

BOX 2201 STATION A 
CHAMPAIGN III. 61820 O&Ai 



Reservados todos os direitos de reprodução nos 
países que aderiram à Convenção de Berne; 
Portugal: Decreto de 18 de Março de 1911; 
Brasil: Lei n.^ 2577 de 17 de Janeiro de 1912. 



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POEMAS HERÓI -CÓMICOS 
PORTUGUESES . 






DO AUTOR: 



Do porial à Oamboia, 2.^ edição. 1913. 

Memórias do tempo de Camilo. 1913. 

Pena de Talião, poema herói-cómico. 1913. 

A corte de D. Pedro ÍV, 2.^ edição. 1914. 

Notas sobre o «Amor de Perdição». 1915. 

O Arco de Vandòma, romance. 1916. 

A Praça Nova. 1917. 

Terra prometida, romance. 1918. 

O melhor casamento, romance. 1921. 

O torturado de Seide (Camilo Castelo Branco). i921. 

Poemas herâi-cámicos portugueses (Verbetes e Apostilas). 



ALBERTO PIMENTEL 



Poemas Herói-Cómicos 
Portugueses 



(VERBETES E APOSTILAS) 




EDITORES 

RENASCENÇA PORTUGUESA — PORTO 
ANNUARIO DO BRASIL — RIO DE JANEIRO 



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SEP 28 1967 



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AO LEITOR 



Jr ASSEI longínquos anos da vida— e não 
os choro porque foram os mais felizes 
— coleccionando fugitivas curiosidades lite- 
rárias, quási esquecidas, entre elas os nos- 
sos poemas herói-cómicos, dos quais apenas 
um, o Hissope, andava na boca de toda a 

gente. 

Tive ocasião de verificar que não eram 
tão poucos como eu supunha, nem alguns 
eram tão valiosos que pudessem justificar a 
sua raridade. 

Passaram. Este verbo explica muitas coi- 
sas inconfessáveis em letra redonda. 

Feita a colecção fiz o inventário respec- 



8 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

tivo, expungindo unicamente as torpezas por- 
nográficas, e hoje o dou a lume também 
como simples curiosidade^literária. 

Penso que o poema herói-cómico, para 
que em verdade o seja, deve especializar-se 
pelo desenvolvimento integral duma acção 
atribuída a um ou mais indivíduos, e siste- 
maticamente "exagerada com o propósito de 
fazer rir. 

Mas a intenção drolática de qualquer nar- 
rativa jocosa, em verso permitir-me há, ao 
menos por extensão e tolerância, incluí-la na 
resenha dos poemas herói-cómicos. 



A 



AGOSTINHEIDA, poema herói-cómico em 9 cantos. 
Londres, 18Í7. Há segunda edição feita em Lisboa, me- 
nos correcta e limpa; e terceira edição estampada em 
Barcelos (1876) por iniciativa do dr. Rodrigo Veloso. 

O autor foi Nuno Alvares Pereira Pato Moniz, 
inimigo irreconciliável do Padre José Agostinho de 
Macedo/ e o assunto é a vida e feitos deste Padre: 

Eu, que, nos sons de Clio, ou nos de Euterpe, 
Ou já nos de Melpómene cantava 
Prazeres, e paixões, virtude, e gloria; 
Agora, zombeteiro flauteando, 
Canto o Camões da Rua da Bombarda 
Que, d'Epico furor doudo varrido, 
Poz do Velho Camões a calva á-mostra, 
Expondo aos Mares novamente o Gama. 

Este breve excerto basta a dar medida do tom 
geral da composição e do seu valor literário, que é 
incontestável. 



10 POEMAS HEROI-COMICOS ^ 

A opinião pública tem colocado a Agostinhcida no 
segundo lugar dos nossos poemas herói-cómicos, logo 
depois do Hissope. E eu creio que deve ser assim. 

Como sátira pessoal, se nào sobe ao diapasão in- 
flamado de Bocage, porque Moniz tem menos estro e 
pulso, sustenta contudo galhardamente o fogo da 
bateria. 

Na obra literária de Moniz como na sua vida par- 
ticular ou política, encontra-se sempre «um carácter», 
que não' recua deante dum indefesso trabalho de polí- 
grafo, não empalidece de susto deante das arremetidas 
selvagens do Padre José Agostinho, nem verga ao 
peso das próprias responsabilidades quando ataca ou 
quando se defende no livro, no palco e no jornal. 

Nisto está em contradição plena com o seu fogoso 
adversário, que foi sempre «a ausência de um ca- 
rácter». 

Inocêncio, a quem se nào pôde deixar de reconhe- 
cer certa inclinação para José Agostinho — e tanto que 
escreveu as suas Memórias e reiiniu materiais para 
uma edição das suas obras inéditas — diz que na 
Agostinheida há «transposições de tempo, de envolta 
com asserções tão manifestamente falsas, que tornam 
sobremaneira duvidoso, se não inacreditável, o mais 
que o auctor avança» ^. 

Isto escreve Inocêncio a propósito do episódio 
amoroso do Padre com a freira de Cóz, contado no 
canto V da Agostinheida, 

1 Memórias, pág. 16. 



PORTUGUESES 1 1 

Que importa que haja transposição de tempo? 
Um poema herói-cómico não é um calendário nem 
uma sequência cronológica de décadas. Tudo quanto 
possa dar relevo à figura do protagonista, e de algum 
modo lhe desenhe, pinte e defina o carácter, tem 
cabimento em qualquer lugar, contanto que lhe não 
falte um fulcro de verdade ou pelo menos de coe- 
rência. 

Ora, justamente nas Memórias se encontra a notí- 
cia de que o Padre José Agostinho, depois dos seus 
amores com a actriz Maria Inácia da Luz (e é esta uma 
das páginas mais vergonhosas da biografia' do Padre) 
arrastou a asa a certa freira de Odivelas, à qual atrai- 
çoou com uma religiosa de Coz, Maria Cândida do 
Vale \ e com esta, que por causa dele abandonou o 
convento, viveu em íntimas relações até à morte e a 
fez herdeira do seu esj ólio '^. 

^ Aqui temos o facto basilar do episódio da Agosti- 
nheida: pouco importa a transposição da época. 

Hoje, que estão publicadas as Memórias e as Obras 
inéditas coligidas por Inocêncio, se as confrQntarmos 
com a Agosfinheida, reconhece-se que Pato Moniz foi 
mais verdadeiro do que era de esperar numa sátira 
violenta. 

1 Memo fias, pág. 103. 

2 Ê notável este último facto, tanto mais que o Padre, nos 
últimos anos de vida, em correspondência amorosa com uma freira 
do Rato, metia a ridículo Maria Cândida por causa dos unguentos 
c trapos com que ela pensava um aneurisma no pescoço. - 

Que flagrantes e revoltantes contradições ! 



12 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

ANTÓNIO CARO, poema fieroe-cômico por Souza 
Portugal e Maurício d'Athayde. — Lisboa — 1879. 

Esta composição prometia ser a primeira de uma 
série sob o título geral de Charlatães contemporâneos, 

O protagonista é o ilustre homem de estado Antó- 
nio Maria de Fontes Pereira de Melo. 

Numa carta preliminar conta Sousa Portugal que, 
tendo sido sargento do exército e requerendo a sua 
readmissão no serviço militar, Fontes lha negara. 
Acrescenta que durante 13 anos teve esta dívida em 
aberto, mas que, encontrando um colaborador no seu 
amigo Maurício de Ataíde, resolve pagá-la com um 
poema herói-cómico, — embora, «em verso de pé que- 
brado», palavras suas. 

São 5 cantos — em 97 páginas. 



B 



BALÃO (O) aos habitantes da lua. Poema, herói' 
-cómico em hum só canto. Por José Daniel Rodrigues da 
Costa. Lisboa, na Impressão Régia. Ano 1819. 

Compõe-se de um prólogo em verso decassílabo 
pareado e de 80 estâncias. 

O assunto é a viagem de um aeronauta à lua e ã 
descrição dos usos e costumes estabelecidos entre os 
habitantes daquele planeta. 

A graça do poema — e alguma tem realmente — 



PORTUGUESES 13 

está em passar-se na lua justamente o contrário do 
que se passa na terra. 
Por exemplo: 

Temos quem nos governe com respeito, 
Com justas Leis, que sobre nós impérâo, 
Tudo, quanto se manda, he logo feito, 
Porque as Leis do paiz nunca se altérao. 
Este mundo he da Lua, e mui perfeito, 
Onde os raios do Sol mais reverbérão; 
E por nosso brasão nos nossos planos, 
Chamão-se a estes Povos os Lulanos. 

O nosso Herói, que ao longe descobria 
A Praça, que servia de Ribeira, 
Lhe perguntou se sempre se comia 
Peixe fresco da mão da vendedeira? 
Disserão-lhe que sim, porque ha vigia. 
Que manda o peixe podre á montureira ; 
Que o dono soffre á força esta differença; 
Mas que o Povo não compra uma doença. 

Que nos açougues ha igual revista. 
Nas tendas, padarias, e nas fructas, 
Que estas em sendo verdes, mesmo á vista 
De seus donos se pizão sem disputas; 
Ninguém com estas cousas se malquista, 
Que ha para as regular certas minutas, 
Que assim a gente vive satisfeita, 
Porque quanto se compra, se aproveita. 

José Daniel foi; como se sabe, um gracejador po- 
pular e nào um escritor ilustrado; mas na sua graça 
há observação e, por isso, uma eterna oportunidade. 

Do Balão fez-se uma edição no Brasil em 1821. 



14 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

BANHEIDA (A) Porto, 1849. 

Nunca pude encontrar este poema herói-cómico. 

Vi-o, apenas, mencionado no catálogo da livraria 
Moreira Cabral (Porto), 2.^ parte, n.° 4834. Aí se diz 
que é um poema épico e que o autor se inculca um 
poeta do Maffo (sic). 

No catálogo dã livraria Fernandes Tomás (Lis- 
boa, 1912) A Banheida vem classificada como poema 
herói-cómico, sendo a data e o lugar da impressão os 
mesmos que no catálogo Moreira Cabral, mas sem 
referência nenhuma ao pseudónimo que o autor 
usou. 

BATOTEIDA (A) Vi este poema herói-cómico em 
manuscrito na Livraria Antiga e Moderna, de Lisboa. 

Suponho-6 inédito; e autógrafo em razão das 
muitas emendas feitas com a mesma letra do texto. 

O poema tem seis cantos em verso solto, decassí- 
labo, sem notas e sem nome de autor. 

Principia assim : 

Eu canto o gran-Batota, o sábio, o illustre 
Varão, cuja alma de chicharro podre 
Illuminou das lettras o areópago 
Como candeia, que, affogada em borras, 
Dá fosca luz n'um canto da cozinha. 
Musa de Elpino, afina-me a bandurra; 
Enchota-me do cérebro as ideias, 
Que álapardadas, somnolentas, monas 
Lá jazem, como jazem regateiras 
' ^ Criminosas, do Aljube nos recessos. 

Eu cantar nâo pretendo os Alexandres, 



PORTUGUESES 15 

Que os bucephalos bravos esporeiam, 

Da guerra meneando o facho ardente. 

Heroes-vampiros, que de sangue nutrem, 

Merecem maldições e não poemas. 

Eu intento cantar, em verso chocho, 

Heroe, que inspira gargalhada ás turbas, * 

Heroe, meão de corpo e de bestuto, 

Frascario e tonsurado Dom Quichote, 

Pimpão das lettras e também das tretas, 

Mas pimpão que faz rir ! . . . 

Por esta proposição se apura que o herói é um 
padre dado a trabalhos literários; e como a letra do 
poema é moderna, certamente do século XIX, dentro 
deste mesmo século devemos investigar a identidade 
do herói. 

Mas, a breve trecho, surge-nos uma indicação se- 
gura: 

Quero que consultando Mané Coco, 
Do beco do Monete as chinelleiras, 
E os annaes de Petisco e Despauterio, 
Lances ao prelo diccionario hydropico. 
Onde definas a balea-peixe. . . 

Aqui estão trancados a lápis dois versos, mas é 
fácil ainda lê-los: 



Do gen'ro dos mamães (sic) e da ordem 
Dos cetáceos (esta ordem é desordem !) 

Não contando com aqueles dois versos, que aliás 



r 



16 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

de tanto auxílio nos foram para descobrirmos o autor, 
também os seguintes continuam a esclarecer-nos, refe- 
rindo-se ao dicionário: 

Onde de caganita os derivados 

Encham nem mais nem menos que mil paginas; 

E onde emfim deixes a escorrer em sangue 

A lingua e o bom-senso. Mais pretendo 

Que original grammatica publiques, 

Onde impinjas á infância incauta e ignara, 

Que ha certas orações com dois sujeitos! 

Não é preciso mais: está descoberto o herói do 
poema: é D. José Maria de Almeida e Araújo Corrêa 
de Lacerda, que foi deào da Sé Patriarcal de Lisboa, 
deputado em várias legislaturas, sócio da Academia 
Real das Sciências, etc. 

No seu Díccionario da lingua portugueza, feito so- 
bre o de Eduardo de Faria, encontra-se efectivamente 
a seguinte definição de baleia: «peixe marinho do gé- 
nero dos mammais e da ordem dos cetáceos, etc.» 

Os derivados de caganita não ocupam mil pági- 
nas como diz jocosamente o autor do poema, mas 
nenhum fica decerto no tinteiro. 

Quanto à gramática, é certo ter D. José de La- 
cerda composto uma, que serviu de introdução ao 
dicionário, e foi reproduzida em separata no ano 
de 1859. 

Isto pelo que respeita ao herói. 

Relativamente ao autor, não sei quem fosse, mas 
devia ser homem de letras: metrificava correntemente. 



PORTUGUESES 



17 



manejava bem a língua portuguesa, e as repetidas 
emendas representam gosto e apuro. 

Alguns episódios teem graça e vivacidade cómica. 

BENTEIDA, poema heroi-comico em 3 cantos por 
Alexandre António de Lima. 

A 3.^ edição deste poema apareceu em Barcelos 
no ano de 1876, por iniciativa do dr. Rodrigo Veloso. 

Na 1.^ edição (1752) ^ o poema tinha o sub-título 
de «ou nova matamorphose» e dizia-se produção de 
Andronio Meliante Laxaed, que é o anagrama do autor. 

Da 2.^ edição dá notícia o bibliógrafo Inocêncio. 

A Benteida, composta em oitava-rima, tem sido 
apreciada com favor e desfavor, mas os votos emiti- 
dos por José Agostinho de Macedo, Inocêncio, Rebelo 
da Silva e Teófilo Braga, se não são de aplauso in- 
condicional, são favoráveis ao autor e ao poema. 

assunto peca principalmente por nos ser obscuro 
hoje. 

Segundo o Argumento, trata-se de um Bento Antó- 
nio, natural de Elvas e grande cultor de Baco, o que 
dá lugar, melhor do que na Santarenaida, a. disputas 
entre Baco e Netuno, aquele propício ao seu devoto, 
este irado contra êle. 

Bento António foge à família e vem para Lisboa, 
onde encontra a protecção da condessa de Alva. 

Um dia, arrependido de haver adoptado o culto 
do Baco, acha-se na contingência de ter que sofrer 

1 Constantinopla, na Officina (sic) Bigodiana. 



18 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

não SÓ a cólera do deus da água, mas também a do 
deus do vinho. 

Tanto Netuno como Baco vão pedir a Júpiter que 
os vingue, mas o Tonante, atenta a alta protecção da 
condessa, nega-lhes auxílio. 

Então Baco converte Bento António em mulher 
feia, e Júpiter modera este castigo, permitindo que 
seja formosa. 

Dona Benta chega a ser açafata na corte. 

Tal o Argumento. 

Quem era Bento António? Trata-se de uma alego- 
ria ou de uma realidade? fere-se uma personagem 
acusada de inversão sexual ou retrata-se apenas um 
paranóico popular, que chegou a vestir-se de mulher? 

Inclino-me para esta última hipótese, porque, em 
as notas, aliás pouco elucidativas, que seguem o poe- 
ma, se diz que Bento António era perseguido pelo 
rapazio das ruas, que «por zombaria» se lhe mandou 
passar o alvará de açafata, e que na sua opinião o 
grilo e a rã cantavam muito bem. 

Como quer que seja, à parte os ressaibos da es- 
cola gongórica, defeito ainda subsistente naquela 
época, o poema tem valor. 

A descrição de Baco e de Netuno no 1.° canto^ 
o retrato do herói e a sua navegação para Samora 
no 2.°, o diálogo dos deuses e a metamorfose de Bento 
António no 3.^ são, em verdade, bem tratados, e ainda 
hoje apreciáveis. 

Alexandre António de Lima nasceu em Lisboa nc 
ano de 1699 e foi sócio de academias. 



PORTUGUESES iq 

BISNAGA ESCOLÁSTICA, composição incluída 
na Macarronea latino-portugueza, do mesmo autor de 
Calouriados. 

Canta as antigas batalhas travadas a murro e ca- 
lhau entre os rapazes do Bairro Alto e Alfama nas 
encostas da Cotovia em Lisboa. 

Musa mihi memora, quae Alfamae causa Ranhêtam, 
Ac Bairraltensem Espantam tot volvere seixos, 
Insignes marotice tolos, tot rompere cascos 
Impulent. Tantaene animis mamotibus irae ! 

Veja-se Macarronea latino-portugueza. 

BOLHA (A). 

A Bolha (Resposta á Niveleida, ao espectáculo e ao 
Nivel Académico, três semsaborias distinctas, e nenhuma 
de geito.) 

Sem nome de autor, nem lugar e data de impres- 
são. Mas sabe-se que foi impressa em Coimbra no 
ano de 1886. 

É uma paródia ao canto 1.° dos Lusíadas. 

E abre assim: 

Os grandes paspalhões assignalados, etc. 

BRAVO (O) forneiro viajante, Lisboa, 1852. 

Apenas conheço este poema pela menção que faz 
dele, entre outros poemas herói-cómicos, o catálogo 
da livraria Fernandes Tomás (Lisboa, 1912) a pág. 
386, n.'^ 5955. 



20 POEMAS HEROI-COMIDOS 

BUI^ROS (OS) ou o reinado da Sandice, poema 
heroi-comico, satyrico, em seis cantos, por J. Agostinho 
de Macedo. 

A última edição é do Porto, 1902. A primeira 
fez-se em Paris, 1827; ainda durante a vida do autor, 
e saiu profundamente alterada; o mesmo aconteceu 
à edição de 1835 também feita em Paris, bem como 
àquela que principiou a estampar-se em Lisboa no 
ano de 1837, a qual aliás não passou do 2.® 
canto. 

Assim, pois, dizia Inocêncio em 1860 (tomo IV do 
Dicc. Bibl.) que este poema podia considerar-se iné- 
dito, e que existiam muitas cópias dele, mas todas 
discordes entre si. 

O livreiro portuense António Rodrigues da Cruz 
Coutinho possuía uma dessas cópias, e foi sobre ela 
que se fez aquela edição de 1 902. No Aviso do editor 
pede-se aos possuidores de outras cópias o favor de 
darem conhecimento de quaisquer variantes ou cor- 
recções. 

Esta edição do Porto não é, em verdade, isenta 
de manifestos defeitos. 

Todas as elaborações por que o poema tem pas- 
sado resultaram, a meu vêr, não de erros acidentais 
dos copistas, mas das ensanchas que ele deu, e dá, a 
introduzirem-se-lhe, por espírito de vingança ou male- 
volência, novas passagens e alusões pessoais. 

Os Burros são um poema que pode alterar-se ou 
continuar-se em qualquer época, metendo-se dentro 
dele toda a gente a quem qualquer fazedor de verso 



PORTUGUESES 21 

solto, dispondo de ânimo bilioso, queira denegrir ou 
injuriar. 

isso mesmo fez o Padre José Agostinho que, de- 
pois de ter escrito o poema, o foi aumentando entre 
os anos de 1812 a 1814, para que lhe nào escapas- 
sem mortos e vivos, mulheres e homens, frades e frei- 
ras, políticos, padres, médicos, escritores, os amigos 
dos seus inimigos, e os inimigos nào dos seus amigos 
— mas dele próprio. 

E nào só o aumentou, mas também o alterou ao 
sabor das suas violentas paixões e das circunstâncias 
de momento. 

Daremos um exemplo. 

Como houvesse muitos queixosos do poema, a 
Intendência Geral de Polícia mandou abrir devassa 
contra o autor. 

José Agostinho, sobressaltado, expungiu dos Bur- 
ros os nomes de todas as pessoís de maior valimento, 
e as mais cruas obscenidades e injúrias. 

Depois apresentou na Intendência um exemplar 
adrede desfigurado, declarando que assim o escrevera, 
e nào como os seus inimigos lho atribuíam. 

Que miserável estratagema! A Intendência fingiu 
acreditar, graças à intervençào de Ricardo Raimundo 
Nogueira em favor do Padre, que continuou a servir- 
-se impunemente do poema como de uma navalha de 
ponta e mola — que ora abria, ora fechava. 

Sob este ponto de vista. Os Burros são um poema 
abominável; e à arte pouco êle deve, porque em ver- 
dade se pode considerar uma estopante maçadoria. 



22 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Contudo, o Padre José Agostinho, sempre vanglo- 
rioso e empavonado, nào duvidou dizer: 

Se o Sena tem Lutrí ts, tem Lysia os Burros. 

E na Prefação orgulha-se de haver produzido «um 
verdadeiro poema, de um género único» e com a 
«mesma veemência de Juvenal». 

O Padre, que até ousou medir-se com Luís de 
Camões e com Barbosa du Bocage, era um odre de 
vaidade, Deus lhe perdoe. 

Nos Burros pretendeu nivelar-se com Juvenal; mas 
apenas igualou qualquer boçal arrieiro, nos senlimen- 
tos e na linguagem. 

Diz êle que o seu herói é João Bernardo Loureiro 
da Rocha, porque o julgi o mais asno de todos os 
asnos; e que as outras suas vítimas figuram apenas 
como satélites daquela, embora pareçam maiores. Sem 
embargo, nào será fácil dizer qual das personagens é 
mais azorragada ou menos ferida. 

O ódio do Padre Macedo a Joào Bernardo proveio 
deste ter sido ^liberal, amigo íntimo de Pato Moniz, 
e ainda talvez da Regência de 1820 o haver nomeado 
cronista-mór do reino. 

O autor dos Burros prometeu uma série de notas 
ao poema, para que os pósteros e os presentes nào 
pudessem ter dúvidas quanto às personagens e suas 
acções. 

Quem desempenhou essa ingrata tarefa, ainda em 
vida do autor, foi Francisco de Paula Ferreira da 



PORTUGUESES 23 

Costa, seu amigo, que coligiu 1509 notas e também 
as variantes dos ' Burros em 3 grossos volumes ma- 
nuscritos. 

Parece que era principalmente sobre este abun- 
dante cabedal que Inocêncio projectava trabalhar uma 
edição integral do poema. 

Mas não chegou a realizar o projecto, porque 
Ferreira da Costa vendeu os manuscritos ao biblió- 
mano Pereira Merelo, adversário irreconciliável de 
Inocêncio. 

Por morte de Pereira Merelo vendeu-se em leilão 
a sua livraria. Creio que foi o sr. visconde da Espe- 
rança quem arrematou os papeis que diziam respeito 
a José Agostinho de Macedo. 

Vide Agcstinheida, Coireiada e Mariolada. 



C 

\ 

CABULOGIA (A). 

Compreende, além de outras composições, uma 
paródia ao canto do Camões, de Garrett. 

Foi impressa em Coimbra, 1844, um ano antes 
do autor desta paródia concluir o curso jurídico. 

E quem era o seu autor? António Maria do Couto 
Monteiro, que teve aquela cidade por berço no ano 
de 1821. 

Conheci Couto Monteiro em Lisboa, onde foi aju- 



24 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

dante do Procurador Geral da Coroa e ministro da 
Justiça. 

Era homem ^alegre, talentoso e muito ilustrado. 
Pertenceu à Academia Real das Sciências. 

Castilho, na Revista Universal Lisbonense (Janeiro 
de 1845) saudou a aparição da famosa paródia com 
justo aplauso: 

«Não conhecemos o poeta author d'este brinquedo 
métrico; mas nàb é necessário ser um adivinhào para 
dizer que é um estudante nào caloiro em poesia, e 
que nào foi hoje nem hontem que se estreou o seu 
salgado tinteiro». 

Assim era, com efeito. 

Toda a paródia tem por assunto as torturas e pe- 
sadelos da vida académica: 

Correi sobie esta meza carunchosa, 

laoTÍ;nat> tristes milhas, borrifae-a, ' 

qne o pezo do Digesto a tem quebrado. 

Cábula mi:iha pachorrenta e gòria, 

<jquem entre as folhas te expremeu dos livros? 

O viço de meus olhos se ha murchado 

nas fa'igas, iio ardor sevo do estudo; 

extranhos nomes, ignoradas tretas, 

bárbara asneira vi, cahi no somno, 

penei apoquentado entre maçadas, 

vaguei sósinho, em cólicas fervendo, 

por essas aulas onde mora o suso. 

Tudo soffri na esp'rança de um feriado. 

Mas no instante de havel-o, toca o sino, 

Cábula minha pachonenta e gcrda, 

^quem entre as folhas te expremeu dos livros? 



PORTUGUESES 25 

Longe, á tarde, por margens do Mondego, 
na soidào melanco^ca do Al.négre, 
ouvi berrando a negregada cabra, 
e de ouvil-a tremeu minha preguiça. 

Este excerto bastará para dar medida do valor in- 
contestável da composição. 

O conselheiro António Maria do Couto Monteiro, 
que desde 1879 fora par do reino, faleceu em Lisboa 
no dia 1 de março de 1896. 

Conta Gomes de Amorim que o visconde de Al- 
meida Garrett, quando ouviu pela primeira vez reci- 
tar aquela paródia, ficou agradavelmente surpreendido 
e disse: 

— Isso é bom. 

Completam a Cabulogia alguns sonetos e outros 
versos de Luís de Bessa Correia, entào também estu- 
dante de Direito em Coimbra. 

CAFRE (O) Dizem-me que o dr. José Carlos Lo- 
pes, do Porto, adquirira este poema em manuscrito 
^ para a sua livraria; que o autor do poema foi Joaquim 
da Costa Lima Júnior, quando estudante, — depois 
professor de arquitectura civil na Academia Portuense 
de* Belas Artes e arquitecto da Camará Municipal 
daquela cidade — e que o protagonista é o então di- 
rector da mesma Academia, posteriormente nomeado 
para igual cargo na Academia Politécnica. 

O poema, composto em decassílabos pareados, tem 
valor literário, como pude verificar por um excerto. 
O autor cultivava as musas com espontaneidade e 



"26 POEMAS HEROI-COMICOS 

<:orrecção. Bosquejou-lhe a biografia António Augusto 
Teixeira de Vasconcelos e publicou-a com a de outro 
arquitecto portuense, Manuel José Carneiro, num 
opúsculo impresso no Pôrtb em 1866, tào raro que o 
nào cita Inocêncio, e de que eu apenas tive conheci- 
mento pelo catálogo da livraria do. Professor Quilher- 
me António Cgrreia (1908). 

Posteriormente pude adquirir um exemplar em 
Lisboa. 

CALOURÍADOS. 

É uma das três composições que destacamos da 
Macarronea latino-portugueza. 

Pode sem violência considerar-se poema herói- 
-cómico, escrito num só canto, ou mais propriamente 
cantas anicas, para conservarm.os a mesma linguagem 
do autor. 

O assunto está enunciado no seguinte argumento: 
Describitur jornata cajusdam Calouri venientis ad Coim- 
bram, et inde regressas ad saam casalem. 

E o herói é Joào Fernandes, que personaliza o 
tipo comum do calouro montezinho. 

Sobre o valor desta, e das outras duas composi- 
ções, veja-se a rubrica Macarronea latino-portugueza. 

CALOURO (O) poema satyrico de costumes — por 
J. V. — Porto, 1872. 

O protagonista é o tipo escolar do Calouro no 
Porto. 

O autor foi Joào António Vieira, natural de Fán- 



PORTUGUESES 27 

zeres (concelho de Gondomar), que estudou naquela 
cidade, primeiro como interno no Colégio dos Órfãos, 
depois no Liceu Nacional e por último no Seminário 
Diocesano. Contudo nào se ordenou padre. Retirou-se 
do Porto para a sua aldeia, e lá morreu. 

O poema, que o autor declara ter sido escrito 
quando frequentava os estudos teológicos, revela faci- 
lidade de composição, mas pouco esmero literário na 
factura métrica. 

E a revisão tipográfica foi também muito des- 
curada. 

CAMÕES EM COIMBRA, por um académico. Coim- 
bra, 1881. 

O autor chama-lhe «poema realista». Mas é uma 
sátira, pessoal e acerba, aos estudantes promotores dos 
festejos com que a acadjmia de Coimbra comemorou 
o terceiro centenário da morte de Camões. 

CAMPANHA (A) do ôvo — Porto, 1898. 

No catálogo da livraria Fernandes Tomás encon- 
trei esta indicação bibliográfica, sob o n.° 3979 (poe- 
mas herói-cómicos). 

Mas nas livrarias e alfarrabistas do Porto ninguém 
me pôde dar notícia de qualquer poema herói-cómico 
deste título. 

CARTÍADA (A). 

Vi uma cópia deste poema em Sesimbra. Pertence 
ao sr. Marqjes Pólvora, que me permitiu a sua leitura. 



28 POEMAS HEROI-COMICOS 

O autor subscreve-se Afonso Mendes d' Odemira e 
Pina, mas foi António Maria d' Oliveira Parreira, eru- 
dito autor dos Luso-arabes e professor do Liceu Ca- 
mões em. Lisboa. 

Esta composição jocosa leu-a o autor num pic- 
-nic realizado em Azeitão no dia 31 de julho de 
1871 e tem por assunto uma porfi.i entre damas e 
cavalheiros para fazerem chegar ao seu destino cartas 
contraditórias que mutuamente procuram interceptar. 

O poema consta de Canto, Cantão e Cantinfio em 
oitava-rima, e de um Addit amento ; de notas que reve- 
lam os verdadeiros nomes das personagens; de um 
prólogo para a primeira edição «em leira de penha, 
visto não haver nesta terra (Az_^itào) imprensa de letra 
redonda»; e de uma suposta crítica do mestre Cle- 
mente José Isidro Mocho ao autor da Cartíada. 

Esta crítica, também escrita pelo professor Parreira 
contra si mesmo, ficou incompleta. 

A Cartíada nunca foi impressa. O seu autor, espí- 
rito muito culto, apenas pretendeu produzir um gracejo 
de ocasião, fingindo-se ignorante de preceitos literários. 

Era um homem de valor. Foi êle que me indicou 
o assunto do roraance Um conflicto na corte. 

CASAQUEIDA (A). 

Conheci este poema por intermédio do livro In illo 
tempore, do malogrado escritor Trindade Coelho. 

O herói era um estudante de Coimbra, natural do 
Alentejo e de apelido Boavida, que se lembrou de 
vestir casaca para exibir-se conselheiralmente em certa 



PORTUGUESES 29 

soirée realizada no Club dos lentes, desdenhando assim 
a capa e batina escolástijas. 

Este poema, em oitava-rima, constitui um folheto 
de 8 páginas, com um Acto Addidonal na última. 

Apareceu anónimo, mas Trindade Coelho, que o 
anotou ao transplantá-lo para o seu livro, diz que o 
autor fora o estudante brasileiro Pinto da Rocha» 

A Casaqueida, causticante facécia coimbrã, era 
vendida à Porta Férrea por 20 reis. 

CAXORRÁDA, Manuscrito em poder do dr. Ro- 
drigo Veloso^. Consta de 84 oitavas, e canta as faça- 
nhas de um cachorro contra um lobo. 

CEBOLÍADAS (OS) poema heroe-comico {em quatro 
cantinhos) por Costa Ferreira (António da). Piefaciado 
por António Aurélio. Lisboa, 1900. 

É um poema da vida escolar, escrito por um estu- 
dante de anatomia, e que parece dever o título a ou- 
tro estudante de alcunha — O Cebola. 

Às oitava-rimas dos «quatro cantinhos> segue-se 
um suplemento em quadras. 

CERO TO (O) por Venâncio de Matamá. Impresso 
no Porto, creio que em 1898, pois lhe falta a data 
de impressão. 

Consta de quatro cantos em oitava-rima, tendo o 
princípio de cada canto uma página de ilustração. 

1 Não sei quem no leilio da respectiva livraria o adquiriu. 



30 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

O herói é um boticário, como se depreende da 
1.° canto: 

As Artes e um artista assig-alado, 
Que da pátria d'Affonso Araducana, 
Depois da ponte Pisca ter passado, 
Passou ainda alem da de SanfAnna, 
Com muitos saccos d'hervas carregado, 
Mais do que permitia a força humana: 
E em terras de Pusmil edificou 
Botica que elle tanto sublimou. 

Pena é que faltem ao poema as notas precisas 
para desembrulharmos as suas alusões pessoais, maior- 
mente porque a composição tem valor literário. 

CHAMORREIDA (A) poema heroi-comico. Lisboa, 
1837. 

O autor é Pedro Inácio Ribeiro Soares (Vide Des- 
cída de D. Miguel). 

Nào se imprimiu mais que o canto 1.®, em verso 
decassílabo. 

«Eram assumpto — diz Inocêncio — as tentativas 
que inutilmente se fizeram em Belém nos dias 4 e 5 
de Novembro de 1836 para restabelecer o governo 
da Carta, e aniquilar a revolução de 9 de Septembro 
do mesmo anno». 

Nunca vi esta composição. 

CHARLATANISMO (O), ou o congresso abolido. 
Poema heroe (sic) &m verso solto. Manuscripto achado 
n'um canto do Palácio das Necessidades, depois das 



PORTUGUESES 31 

cortes serem abolidas em 5 de junho de 1823. Pa- 
ris, 1824. 

O autor, José Anselmo Correia Henriques, escre- 
veu vários poemas do mesmo género (Vide Padeira 
de Aljubarrota, Perodana e Mariolada). Este pudemos 
vê-lo rapidamente na Biblioteca Nacional de Lisboa. 

Correia Henriques, que foi ministro de Portugal 
junto às cidades hanseáticas, e que faleceu em 1831, 
nâo se distinguiu como diplomata nem como poeta. 
Mas tinha o gosto de escrever, e foi semeando poe- 
mas, e outras composições, em vários prelos dsi 
Europa. 

O Charlatanismo, ou o Congresso abolido, canta, 
como o seu título indica, a restauração absolutista 
de 1823. 

Este poema é uma duplicação, mutatis mutandis, 
da Perodana, outro poema herói-cómico de Correia 
Henriques, impresso em 1819. 

Veja o leitor a proposição do assunto no Charla- 
tanismo, que diz assim: 

Canto da Inépcia o Reino tenebioso, 

Cantarei burrical, fofa matilha 

De valentes, acérrimos Quixotes: 

Gentes que, sem saber falar a geito, , 

A sandice proclama em toda a parte, etc. 

E, confrontando-a com a da Perodana (Vide este 
vocábulo) há de reconhecer que o autor, apenas com 
algumas alterações, fez dum poema dois — processa 
fácil de fazer poemas. 



32 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Também deve o leitor confrontar o final de um e 
outro. 

Na Perodana, Apolo despede do céu um raio vin- 
gador, que reduz a cinzas as obras dos gazeteiros. 

No Charlatanismo é o infante D. Miguel de Bra- 
gança que expulsa a pontapés os deputados liberais, 
assentando-lhes os pontapés no sítio em que eles cos- 
tumam dar-se. 

Vejamos: 

• 

«Voltou a si o Deus Charlatanismo, 
Apontando co'o dedo ao fatal quadro, 
Indica do seu Reino o triste agouro, 
E o fado da boçal Democracia. 
Em torno vê erguer todos os olhos 
Ao quadro que causou tanto cuidado. 
Eis que vê retratada em finas cores, 
Do Infante Dom Miguel a vera effigie. 
Qual emblema do archanjo do seu nome 
Vir ser o serafim da Lusitânia. 
Já entre as crespas enroladas nuvens, 
De fumo da Alfazema que subia, 
Aos altos tectos desta salla immeasa 
Desceu do quadro e vai pousar na meza 
O resoluto Heioe ds. Lusitânia; 
Com ponta-pés no rabo leva a corja, 
Indignado de dar uso á catana, 
' Manda o Charlatanismo e comitiva, 

Outra vez a pastar o duro cardo 
E os membros da notável assembleia 
Guardar as cabras e reger Pantana>>. 

O poema tem 5 cantos, e uma dedicatória^em 
prosa. 



PORTUGUESES 33 

CHELAIDA (A). 

Este poema inédito, de que existe cópia na Vila 
da Feira, é atribuído ao dr. Vicente Carlos de Sousa 
Brandão. 

O herói do poema foi miguelista e o autor 
liberal: donde resulta ser a Chelaida uma sátira po- 
lítica. 

O título provém de um lugar que na freguesia 
de Lever, do concelho da Feira, se chama Cheio, 
porque aí, segundo diz o autor, fora moleiro o avô 
do herói. 

A maior parte da acçào decorre na Vila da Feira, 
cuja descrição é bem pormenorizada. 

Destaca, como nervo da acção, a ânsia com que o 
herói aguardava a célebre «medalha» conferida por 
D. Miguel de Bragança aos seus afeiçoados; e o 
orgulho com que foi recebida, facto que o agraciado 
solenizou com um baile comemorativo. 

CHICOTE (O) poemeto dedicado a todos os preté- 
ritos, presentes e futuros subscritores do /?. P. Amaro; 
Pariz, 1829. 16 paginas. 

É propriamente uma sátira política, posto que te- 
nha um tanto ou quanto de poema herói-cómico, pois 
aí se cantam as façanhas e proezas do padre Joaquim 
Ferreira de Freitas, madeirense, geralmente conhecido 
por Padre Amaro, em razão do seu jornal O Padre 
Amaro, ou sovela politica. 

O autor deste poemeto foi o médico José Pinto 
Rebelo de Carvalho. 



34 POEMAS HEROI-COMICOS 

CHUMACINHO (O) fartado: epopea jocosa, dedi- 
cada á ill."^ e ex."^^ sr.^ D. Anna Genoveva Fer- 
reira Nobre Rossi, por um Ermitão de Parnaso; 1767. 

O autor foi Joào Pedro Xavier do Monte, médicO; 
natural de Santarém e falecido nos últimos anos do 
século XVIII \ 

Tanto este, como outros dois poemas seus do 
mesmo género (vide Sapatinhos de setim e Logração 
da Prelasia) ficaram manuscritos; pelo menos Inocên- 
cio assim o supôs e eu o creio. 

Nunca vi deles espia alguma e, por isso, tenho 
de reportar-me à notícia que Inocêncio estampou no 
Dic. BibU, .baseada num volume manuscrito, que com- 
preendia os três poemas, e que pertencia a Francisco 
de Paula Ferreira da Costa ^. 

Inocêncio diz — que esse manuscrito apresentava 
visos de ser autógrafo. 

Chumacinho furtado tem 4 cantos e cada canto 
46 oitavas. 

Na 1.^ oitava do 1.*^ canto, Xavier do Monte expõe 
o assunto: 

Uma discreta acção, lance jocoso, 
Rapina venturosa e engraçada, 
Um roubo o mais honrado e glorioso, 
Empreza a mais feliz e desejada; 

1 Em Santarém não há memória de ter existido ali algum 
indivíduo ou família daqueles apelidos. 

2 Sobre este bibliófilo veja-se a referência que lhe fazemos 
no artigo Os Burros. 



PORTUGUESES 35 

Um innocente furto, e virtuoso, 
Uma sortida bella e delicada, 
Contente cantarei com todo o empenho, 
Se arte me não faltar, e doce engenho. 

Inocêncio comenta: «Nào poderei dizer, se o Roubo 
do anel de cabelos de Pope entrou por alguma coisa 
n'esta composição, que parece assimilhar-se-lhe, quan- 
do menos pelo assunto». 

Nem Inocêncio nem Teófilo Braga ^ julgam favo- 
ravelmente os poemas de Xavier do Monte. 

Contudo, o Dic. Pop. diz que este médico santa- 
reno foi « poeta medíocre no género serio ^, mas de 
algum mérito no jocoso». 

Por minha parte só posso fazer juízo superficial 
pelo breve excerto que Inocêncio dá: mas, nem a me- 
trificação nem a linguagem me parecem inferiores 
às de muitos outros poemas da mesma época e 
género. 

COMMENDAS (AS), poema heroi-comico-safyrico 
em cinco cantos por •»***_ Lisboa, 1849. 

Este poema foi escrito no Porto; e também lá im- 
presso, nào obstante a indicação de que o fora em 
Lisboa. 

autor, por um artifício engenhoso, deixou con- 

1 Estudos da idade- media, pag. 249. 

2 Refere-se à EGiDEA, poema heróico ou historia da protentosa 
(sic) vida do grande penitente S. Fr. Gil, portugtiez, que foi impressa 
em 1788 — Lisboa. 



36 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

signadas na palavra final do último verso as iniciais 
do seu nome e apelidos. 

A tratar thema igual com mais afago. 

Decompondo letra a letra a palavra que se vê em 
itálico, temos: a (António); / (Frutuoso); a (Aires); 
g (Gouveia); o (Osório). 

Quere dizer: António Frutuoso Aires de Gouveia 
Osório, mais tarde lente da faculdade de Direito em 
Coimbra, presidente da Gamara dos Deputados, Mi- 
nistro da Justiça, Par do Reino, Bispo de Betesaida e 
por fim Arcebispo de Calcedónia. 

As Commendas são uma rapaziada alegre, como a 
Murraça de Camilo, e porventura originada nas «ca- 
vaqueiras» que, sobre os acontecimentos do Porto, 
faziam estalar risadas na roda literária do Café Gui- 
chard. 

Eram os tempos do cabralismo, período de polí- 
tica autoritária, que despertava a reacção liberal dos 
«novos>; e no Porto desenrolava-se entào a «época 
dos barões» — como Camilo lhe chama — que dava 
supremacia social aos burgueses dinheirosos e baro- 
neados. 

Nestas circunstâncias, uma lufada revolucionária, 
un vent de Fronde, agitava naturalmente o espírito da 
mocidade portuense levando-a ao protesto contra o 
•cabralismo no governo e contra a plutocracia no 
Porto. 

O autor do poema era entào um dos rapazes j^^jg 



PORTUGUESES 37 

talentosos e ilustrados daquela cidade, amigo íntimo 
de todos os que se lhe igualavam em dotes intelec- 
tuais \ 

Naquela época, Costa Cabral mandara quatro co- 
mendas para o Porto, consignadas ao presidente da 
Associação Comercial (que era Arnaldo Vanzeler), 
a fim de serem distribuídas como recompensa de ser- 
viços políticos. 

A remessa destas condecorações e as peripécias 
da sua distribuição constituem o assunto do poema, 
que é escrito em verso solto. 

Nele figura, entre outros barões, o de S. Lourenço 
(Vide Ratos (Os) na Alfandega de Panfana). 

O dr. Ricardo Jorge fez, em artigo ^, a seguinte re- 
ferência ao poema As comendas e ao seu autor: 

«António Aires de Gouveia, o grande orador, hoje 
anciào envolto na purpura de arcebispo d^ Tessalo- 
nica ^ quando caixeiro esbelto e poeta romântico, des- 
fecha em verso contra uma carga de comendas, atira- 
das a granel sobre os argentarios da invicta, uma 
pungente sátira anónima; fariscada a autoria, escapa 
uma noite, á saída do teatro, milagrosamente, ao 
trespasse dum estoque, vibrado á mão tente duma 
quina da Batalha, e o acinte da perseguição foi tal 
que teve de largar o livro -caixa e a Porta de Carros 



1 Fahceu no Porto em 17 de Dezembro de 1916 com 88 
anos de idade. 

2 Publicado no jornal A Lucta, de 22 de outubro de 1915. 

3 Aliás Calcedónia. 



38 POEMAS HEROI-COMICOS 

para refugir-se nos estudos de Coimbra, onde se dou- 
torou e professou, vindo a celebrizar-se por todos os 
modos; uma espera assassina abriu-lhe a esteira». 

Nào sei se realmente houve «espera»; sei, porém, 
ter havido na imprensa jornah'stica do Porto uma 
azeda polémica entre Camilo Castelo Branco e Antó- 
nio Aires sobre a paternidade deste poema, a qual 
António Aires chegou a negar em letra redonda. 

Em resumo, as coisas passaram-se assim: 

Sendo caixeiro da casa comercial de j. P. Chasse- 
seau, cujo gerente era William Vright, mas dedicado 
à literatura, António Aires malquistou-se com Camilo 
Castelo Branco, parece que por causa de rivalidades 
entre os partidários das cantoras Beloni e Dabedeille. 

Apareceram no Eco Popular alusões desagradáveis 
a Camilo, que escrevia no Jornal do Povo com o pseu- 
dónimo de «Anastácio das Lombrigas» e que em des- 
pique atacou o poema As Comendas, o qual havia 
produzido escândalo. 

Palavra puxa palavra. Camilo revela o nome do 
autor. António Aires nega. Camilo enraivece-se e pro- 
mete analisar detidamente o poema. Intervém apasi- 
guador o pai de António Aires, e Camilo cede, mas 
pica-o uma carta do adversário procurando intimidá-lo 
com os tribunais. Então Camilo confirma a revelação 
que fizera e tosa desapiedadamente o poema. 

Abandonando a carreira comercial, António Aires 
vai para Coimbra estudar preparatórios, e o Eco 
Popular cobre-lhe a retirada afirmando que essa reso- 
lução já tinha sido tomada antes da polémica. (Ve- 



PORTUGUESES 39 

jam-se Arq. de Hist. da Medicina Portuguesa, n.° 5.° 
do 7.° ano, 1916). 

CONQUISTA (A) da cruz por Arcádio Nemorino. 
Lisboa, 1873. 

É um poema herói-cómico, em 7 cantos (com 
notas). 

Assunto: a conquista da gran-cruz da Torre e Es- 
pada por Fontes Pereira de Melo. 

Tive dificuldade em saber quem fosse Arcádio 
Nemorino, tanto mais que é uma designação omissa 
no Diccionário de Pseudónimos. 

CORREIADA (A). 

O Padre José Agostinho de Macedo, no último 
canto dos Burros, prometia um poema herói-cómico 
— A Correiada — de. que seria protagonista José An- 
selmo Correia Henriques. 

Esta promessa foi uma das intercalações por êle 
feitas entre 1812 a 1814, pois que a composição da 
Mariolada, poema herói-cómico de Correia HenriqueS; 
em que o Padre Macedo era visado, data de 1813. 

Três vezes, nos Burros, se refere este Padre à Cor- 
veiada: 

«Filhos, (lhes brada) a besta que alli vedes 
Desejosa de entrar, é minha, é nossa; 
Nasceu nas ilhas, parto atravessado . . . 

Foi-lhe incógnito o pae, e a mãe foi 

Espia na^Suecia, aqui soldado, 

Em toda a parte, em todo o mundo burro: 



40, POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Mais tolo que o Moniz, e até que o Costa, 

Menos patife é Couto, e é menos asno. 

Tu, Bernardo, ó sandeu, tu rei dos tolos, 

Não és tão besta, como o besta Anselmo. 

Se dos Burros te fiz protogonista, 

Foi porque soube que o cantor dos burros 

Tinha escolhido Anselmo, e o tinha feito 

Heroe de outro poema a Correiada, 

Em que os feitos de Anselmo, e as manhas suas, 

I>esde o bastardo berço em versos canta: 

De eterno opprobrio alli será coberto, 

Dando ao diabo a estólida baforda 1, 

Qual nunca os doidos do hospital disseram». 

Mais adiante volta ao assunto: 

. . .Os séculos não viram 
Inda no mundo geribanda d'estas: 
Bons dous cantos 2 tem já da Correiada. 
A par d'isto, ó sandeus, são nada Os Burros. 

Finalmente; ainda se refere o Padre Macedo ao 
seu novo poema quando, sempre falando de José An- 
selmo, diz: 

E c'o rabo entre as pernas se prepara 
A aguentar da Correiada ps raios. 

Nào me consta que o Padre Macedo publicasse 
este prometido poema, ou o deixasse manuscrito. 

1 Alusão à Mariolada. 

2 A edição do Pôito diz contos; e a sua pontuação é defei- 
tuosa nesta passagem, como em outras muitas. 



PORTUGUESES 41 

Faziam parte dele 14 sonetos que, sob a indicação 
de Carreadas, encontrei descritas no catálogo da livra- 
ria Fernandes Tomás (Lisboa, 1912) com esta rubrica: 
«Quatorze virulentos sonetos, contra José Anselmo 
Corrêa Henriques. Original, inéditos»? 

Virulentos? Entào bem podem ser acendalhas que 
o Padre José Agostinho tivesse já de mào para aque- 
cer o fornilho do seu prometido poema. 



D 



DESCIDA (A) de D. Miguel aos infernos a pedir 
auxilio, poema heroico-comico em dois cantos, Lisboa, 
1833. 

O autor é Pedro Inácio Ribeiro Soares, natural de 
Lisboa (1789-1848) e empregado público. 

O poema, que compreende 20 pág., está composto 
em verso solto. 

A acção é, como o título indica, a viagem de D. 
Miguel de Bragança ao reino de Plutão para obter 
um exército diabólico de centauros, centimanos e gor- 
gonas com que possa salvar ainda a sua causa. 

Sendo admitido à presença da potestade infernal, 
D. Miguel pôde conseguir o que desejava, e com essa 
legião auxiliar, que destina ao comando de Bourmont, 
marcha trabalhosamente em direcção ao Porto. 



42 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Entram em scena as hostes do AvernO; fére-se a 
batalha, e os liberais cantam vitória. 

D. Miguel vinga-se dos portuenses fazendo correr 
para o rio Douro os preciosos vinhos armazenados 
em Vila Nova de Gaia. 

Satisfeito da vingança deita-se o vencido príncipe 
a dormir. Teles Jordão aparece-lhe em sonhos e anun- 
cia-lhe a ruína da causa absolutista no sul. D. Miguel 
acorda atónito, e resolve corrV sobre Lisboa para 
tentar os últimos recursos: as guerrilhas e a fuga. 

Todo este poema herói-cómico é ditado pela vio- 
lência da paixào política própria daquela época, e 
acerba nas represálias, de parte a parte. 

Os versos são correntios, mas carecem de eleva- 
ção literária, como tantos outros que se escreveram 
para ferir ou para elogiar D. Miguel e D. Pedro. 

DESERTOR (O), Poema heroi-comico por Manoel 
Ignacio da Silva Alvarenga, na Arcádia Ultramarina 
Alcindo Palmireno. 

O autor, português-brasileiro, nasceu na província 
de Minas-Gerais, e veio cursar a faculdade de Direito 
na Universidade de Coimbra, formando-se em 1776 
ou 1777. 

Foi durante a formatura que êle imprimiu (1774) 
na Real Oficina da Universidade este seu poema, em 
cinco cantos e verso decassílabo solto. 

O Desertor tornou-se muito raro no mercado. 

Daí, por falta de conhecimento directo, algumas 
inexactidões que andam impressas a seu respeito. 



PORTUGUESES 43 

O autor teve em vista glorificar a reforma da 
Universidade pelo Marquês de Pombal, mas para o 
conseguir procurou um processo engenhoso e indirecto. 

Assustados com o maior esforço de aplicação e 
estudo que a reforma impunha, alguns estudantes cá- 
bulas resolvem abandonar a vida académica, e reco- 
Iher-se a penates. 

Já o invicto Marquez com regia pompa 
Da risonha Cidade 1 avista os muros. 
Já toca a larga ponte em áureo coche. 

Entre os apóstatas da sciência avulta, como prota- 
gonista, certo estudante de nome Gonçalo, que vai 
procurar as sopas de um tio, em Mioselha. 

O êxodo realiza-se no meio de complicações inte- 
ressantes. A màe de uma tricana, enganada pelo estu- 
dante Gonçalo, prega a revolta contra os fugitivos e 
logra reunir gente com que lhes aparece no caminho 
a pedir contas ao sedutor da filha. Trava-se combate 
rijo. Gonçalo fica derreado neste prélio, mas, sem 
querer ouvir os conselhos do tio, continua a madra- 
cear em devoto culto à ralaça Ignorância. 

EUa reina em seu peito, e se contenta 
De ter roubado aos muros de Minerva 
De fracos Cidadãos o preço inútil. 

elemento feminino aviventa a fabulaçào do 
poema, com vantagem, neste ponto, sobre o Hissope. 

1 Coimbra. 



44 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

O Desertor revela os méritos de Silva Alvarenga 
como homem de letras que foi. 

E as frequentes comparações procuradas na fauna 
e flora brasileiras clamam, por sua vez, a região natal 
do poeta. 

DIABO COXO (O) epopea. Editor C. A. Zagalo. 
Um folheto. 

DOIS JOÕES (OS) poema em vários cantos por 
Mac — Lisboa, 1889. 

Eu possuo a 3.^ edição. 

O protagonista deste poema é João Burnai, acusa- 
do de, em correspondência oficial, ter preguntado e 
respondido a si mesmo sobre um assunto relativo à 
exploração do caminho de ferro do Transwaal. 

Tem graça, e labor literário. 

Consta de 15 cantos e um epílogo. — 32 pág. 

O autor foi Alfredo Morais Pinto, o chistoso Pan- 
tarântula, redactor do Pimpão. 

DO URI-VINHADA: poema epico-borlesco, oferecido 
aos lavradores do Vinho do Alto Douro, por B. J. S, 
P. C — Porto, na Imp. do Gandra, 1822, 8.^ de 40 pag. 

Não possuo êsté poema nem sequer o vi. 

O autor é o dr. Bernardino Joaquim da Silva Car- 
neiro, que foi lente de direito em Coimbra, e faleceu 
em 1867. 

Compôs este po.ema — em 3 cantos e oitava rima 
— aos 16 anos de idade. 



PORTUGUESES 45 

Toda a composição, segundo informa Inocêncio, 
abrange 40 pág. 
Vide Farfuncia. 



EPIPHANEIDA (A) Brincadeira minha, de que 
sairam algumas oitavas no Diário Illustrado, de Lisboa, 
quando eu ali redigia, além de outras, uma secçào me- 
trificada sob o iiiulo — Kalendario alegre. 

O protagonista era o então professor do Liceu 
Nacional de Lisboa, e depois do Curso Superior de 
Letras, Augusto Epifânio da Silva Dias, terror dos 
examinandos e dos respectivos pais. 

Não sei se o irritante professor me desculparia esta 
badinage jornalística, mas tive certas razões para supor 
que não. 

ESCOLÍADAS. 

Letra de El-Qardeble (vulgo Bell) publicada por 
ocasião da festa carnavalesca dos estudantes da Escola 
Médico-Cirúrgica de Lisboa, em fevereiro de 1901. 

Apenas o 1.° canto, composto de 23 estâncias. As 
duas primeiras propõem o assunto: 

As doutoras e varões assignalados 
Que, da Medica Escola a Portaria, 
Com livros nunca d'antes folheados, 
Passaram inda alem d'Anatomia; 



y 



45 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Em perigos d'exames esfalfados 
Mais do que no bestunto lhes cabia, 
Entre povos mais tarde architectaram 
Doenças que jamais ali passaram : 

\L também as tiradas gloriosas 
D'esses mestres que foram dilatando 
O miolo, e com phrases vigorosas 
No miolo o juizo devastando, 
E aquelles que, por espigas ruidosas, 
Se vão ainda em vida eternisando, 
Cantando espalharei por toda a Escola 
Se a tanto me ajudar engenho e tala. 

Estas e outras estâncias escritas com menos arte 
que mocidade, recordam-nos o conhecido provérbio: 
// faut que jeunesse se passe ou, ainda melhor, a con- 
ceituosa frase do pintor Mareei no famoso romance de 
Murger: La jeunesse n'a qu'un temps. 

ESPANTOSAS ACÇÕES D' ANTÃO BROEGA, me- 
morável narigudo, poema por Manoel Maria de Bar- 
bosa du Bocage. Lisboa, 1835. Folheto de 24 páginas. 

No fim da 1.^ parte, lê-se esta advertência: «Bo- 
cage não fez a segunda parte promettida; e he por 
isso, que outro Poeta a dá á luz a fim de se concluir 
o Poema, ainda que menos favorecido das Musas». 

Ora o «outro Poeta» foi José Joaquim Bordalo, pro- 
fessor de instrução primária em Lisboa, e pai do es- 
critor Francisco Maria Bordalo. 

Neste poema, todo êle composto em quadras, cele- 
bram-se as proezas fantásticas de um nariz monstruoso 



PORTUGUESES 47 

Tem-se discutido se a Bocage pertencem ou não 
as quadras da 1.^ parte. Inocêncio não as incluiu na 
edição das Poesias que coligiu e fez publicar, porque 
não acreditava que tal «destampatório» fosse obra 
daquele poeta ^. José Feliciano de Caotilho na Livraria 
clássica ^, e depois na refundiçào do estudo sobre Bo- 
cage e as suas obras ^, entende e teima que se não 
deve negar a Elmano a paternidade de tais quadras. 

Quanto a mim, julgo-as apócrifas; uma das várias 
publicações, que, sem escrúpulo, foram lançadas no 
mercado, à sombra do nome do popularíssimo poeta. 

A pouca sonoridade dos versos e a incorrecção de 
alguns deles, a pobreza de rima, a assonância de pa- 
lavras dentro dá mesma quadra, atraiçoam nesta 
composição os dotes naturais de Bocage, sempre es- 
pontâneos e fluentes, ainda quando não procurava 
aprimorar o seu estro. 

Assim, pois, não posso crer que Bocage contasse 
como redondilhas de sete sílabas estes dois versos, 
que aliás são de oito:. 

Ao ver a maquina estupenda 
Façanha bem maravilhosa; 

nem que compusesse esta quadra em que monotona- 
mente predomina a vogal — a — : 

1 Poesias de Manuel Maria de Barbosa du Bocage, tom. VI, 
pág. 409. 

2 Tom. XXII, pág. 69. 

3 Tom. II, págs. 117 e 258. 



48 POEMAS HEROI-COMICOS 

O bruto recem-parido, 
Dizem que logo quiz mama, 
E para matar- lhe a rafa 
Correu d'improviso a Ama. 

Um dos predicados que realçavam a harmonia em 
Bocage era, bem pelo contrário, a variedade de vogais 
dentro de cada verso. 

Descontando o que possa haver de incorrecção ti- 
pográfica — como em tantas outras composições atri- 
buídas a Bocage — eu não creio que este poema seja 
dele, ainda admitindo que para o povo o compu- 
sesse. 

A última quadra da 1.^ parte é salientemente cor- 
riqueira e nem por gracejo se pode imputar a Elmano: 

Por ora venhão os cobres, 
Senhor povo, que eu com arte, 
O que lá fez o Broega 
Direi na segunda Parte. 

Encontrei uma referência de Sousa Bandeira — o 
chistoso jornalista conhecido por Braz Tisana — a ou- 
tra obra de J. J. Bordalo, «colecção de cartas alfabé- 
ticas e vocabulosas (sic) para guia completa dos me- 
ninos e meninas». 

Nessa referência informa Bandeira que os redac- 
tores da Semana depenaram sofrivelmente o autor das 
cartas alfabéticas e vocabulosas e depois acrescenta: 

«O mestre Bordalo, desconfiando que a sublimi- 
dade de alguma palavra nào fosse percebida pelos 
seus amáveis leitores, apresenta a versão delas e diz — 



PORTUGUESES 49 

Têz — quer dizer superfície corpórea! Cerviz — escravi- 
dão! Calo — o que molesta os pés! Kilo, medida e 
peso. Vella — a de cebo, cera, e também a de navio. 
— Digerir — quer dizer, consumir no ventre!! Já se vê 
que o homem merece os dous patacos!» \ 

ESTOLEIDA (A). 

Sei que deste poema herói-cómico, o qual ainda 
nào pude vêr, foi autor o português-brasileiro padre 
João Pereira da Silva, depois cónego e mais tarde 
nomeado monsenhor da capela real no Rio de Janeiro, 
cargo de que não chegou a tomar posse. 

Também sei por informação de um ilustre escritor 
fluminense, meu bom amigo, que o cónego Januário 
da Cunha Barbosa transcreveu no seu Parnaso algu- 
mas oitavas do canto 2.°, as quais compreendem a 
descrição do Pão de Assucar e do sítio de Botafogo. 

Nada mais posso acrescentar. 



FARFUNCIA (A) poema heroe-comico offerecido aos 
senhores do Douro por B. J. S. P. C. Porto, 1823, 60 
pags. em 8°, 

autor foi o dr. Bernardino Joaquim da Silva 
Carneiro, lente da faculdade de Direito na Universi- 

1 Escriptos humorísticos, tomo II, pág. 208. 



50 POEMAS HEROI-COMICOS 

dade de Coimbra, muito conhecido pelos seus com- 
pêndios escolares, hoje postos de parte. 

Quando compôs este poema herói-cómico, Bernar- 
dino Carneiro tinha apenas dezassete anos de idade. 

Farfúncia, vocábulo que se autoriza com a lição 
de Filinto Elísio, é sinónimo de farfalhice ou farfân- 
cia. O autor personifica nesta palavra o gosto, a ma- 
nia das famílias durienses pelos chás, dançaS; jogos 
de prendas e de roda, modinhas, batota, etc. 

Farfúncia (assim se chama); mas té gora 
Nenhum Ápelles soube desenhalla ; 
Ou lhe dêm corpo, e talhe de senhora, 
Ou queirão c'os insectos comparalla : 
Em nenhum domicilio se demora; 
Como immensa no Douro se assignala; 
Pois que he todo o seu spirito subido 
O frenesim das sucias 1 conhecido. 

Ella a deosa se diz, a divindade, 
(Das Magas continua a mesma historia;) 
Que invisível preside a sociedade 
Nos dias de prazer, noites de gloria; 
Ella, quem Frazões faz em toda idade; 
No pimponismo induz gente da escoria. 
Ella, as modas inventa, ella farfante. 
Namoros origina a todo o instante. 

Como se vê, o poema (dividido em 4 cantos) é 
composto em oitava-rima; e de medíocre valor literá- 

1 Significando assembleias, partidas de jogo ou dança, em 
casas particulares. Ainda na minha infância assim se dizia no 
Porto. 



PORTUGUESES 51 

rio, uma rapaziada apenas, alegre e incorrecta— até na 
revisão tipográfica. 

Contudo nào se lhe pode negar fidelidade na pin- 
tura dos costumes- sociáveis daquela província, espe- 
cialmente no Alto Douro; e nào digo daquela época, 
porque esses costumes teem ali mudado pouco ou 
nada. • 

Sob este ponto de vista, ainda hoje A Farfuncia é 
verdadeira. 

Quanto ao seu autor, contarei que, sendo já velho, 
os alunos lhe chamavam «Doutor Balandrino» e ju- 
diavam com êle. 

Um ano, no primeiro dia de aula, dia apenas de 
«cavaco», segundo a expressão escolar, um aluno, que 
lhe imitava perfeitamente a voz fanhosa e rouca, lem- 
brou-se de fazer eco a tudo quanto o professor dis- 
sesse. / 

Sentou-se na cátedra o doutor Balandrino e disse: 

— Meus senhores: 
Logo o eco repetiu: 

— «Meus senhores». 

E entào, todo o curso, mordendo o beiço ou guin- 
chando rizinhos, assistiu a esta vivacíssima scena có- 
mica: 

Lente — Vamos começar os nossos trabalhos. 

Eco — Vamos começar os nossos trabalhos. 

Lente — Aqui há-i-eco?! 

Eco — Aqui há-i-eco?! 

Lente — Há-i-há! 



52 POEMAS HEROI-COMIpOS 

Eco — Há-i-há! 

Doutor Balandrino tocou a campainha, veio o be- 
del e êle disse-lhe: 
— Ó seu Galiào. 
Eco — Ó seu Galiào. 
Lente — Vá pedir outra aula. 
Eco — Vá pedir outra aula. 
Lente — Que esta tem eco. 
Eco — Que esta tem eco. 
Lente — Não está ouvindo? 
Eco — Não está ouvindo? 
Bedel — Parece ... 
Eco — Parece . . . 

Lente — Pois não ouve, com todos os diabos?! 
Eco — Pois não ouve, com todos os diabos?! 
Lente — Vá dizer ao reitor e eu vou-me embora. 
Eco — Vá dizer ao reitor e eu vou-me embora. 

Vide Douri-Vinhada, 

FESTA (A) de Baldo, poema mixto, em 8 cantos, 
por Álvaro Teixeira de Macedo, impresso em Lisboa, 
1847, na tipografia de António José da Rocha. Se- 
gunda edição, Lisboa, Tipografia das Horas Român- 
ticas, 1888. Esta edição é o volume \2P da Biblio- 
theca Universal antiga e moderna; traz uma notícia 
biográfica do autor e uma carta de Garrett. 

Álvaro Teixeira de Macedo é português-brasileiro, 
pois nasceu no Recife de Pernambuco, em 1807, 
quando o Brasil estava ainda no seu período colonial. 



PORTUGUESES 53 

Em 1834 o imperador D. Pedro II nomeou-o se- 
cretário (adido) da legação brasileira em Lisboa, onde 
o irmào mais novo de Macedo veio exercer as fun- 
ções de encarregado de negócios. Macedo casou em 
Lisboa com a filha de um' negociante, neta de inglês; 
e faleceu na Bélgica, em dezembro de 1849, quando 
ali representava o Brasil como encarregado de ne- 
gócios. 

O poema Festa de Baldo deve ter sido escrito em 
Lisboa, depois que Álvaro casou, porque nele faz elo- 
giosa referência à esposa: 

Feliz eu, que alcancei das mãos da sorte 
A mulher que meu Baldo procurava; 

Antes do ano de 1843, voltou a Lisboa para 
se tratar de um grave padecimento, em casa da famí- 
lia de sua mulher, padecimento que nào deixou jamais 
de o afligir, roubando-lhe o bom humor de que era 
dotado. 

Contudo a acçào do poema decorre em Pernam- 
buco, na entào vila de Goiana, por uma natural revi- 
vescência saudosa das recordações que o prendiam à 
província em que nascera. 

Garrett diz na carta ao autor que todas as perso- 
nagens do poema falam em português sincero, ornado 
sem exagerações e puro. É verdade. E isto dá mais 
um quilate lusitano à elaboração do poema, posto 
que o assunto seja brasileiro. 

A Festa de Baldo canta com delicadeza, e por ve- 



54 POEMAS HEROI-COMICOS 

zes com graça, as consequências incómodas que 
podem advir, para famílias pacatas, da tentação de tro- 
carem o remanso doméstico pela convivência mundana. 

De vez em quando assombream o bom humor de 
Teixeira Macedo algumas nuvens resultantes da injus- 
tiça com que foi preterido na sua carreira diplomá- 
tica, e perpassam quaisquer alusões políticas, aliás 
mansas e discretas. 

Todo o poema foi composto em verso branco, nào 
isento de algumas falhas na metrificação. 

Da 1.^ edição só vi até hoje um exemplar, na bi- 
blioteca do sr. capitão de artilharia Ferreira de Lima. 

Compreende 93 páginas, sendo uma de dedicató- 
ria e outra de breve prefação ao «Leitor benigno>. 

FILENAIDA, por A. B. de C — Coimbra, 1822. 

O catálogo da livraria Moreira Cabral (Porto) 2.^ 
parte, n.° 5052, designa-o como poema erótico. 

Não sei se será herói-cómico ou não. Ainda o nào 
encontrei. Os livreiros de Coimbra nào me puderam 
dar notícia dele. Nem a Biblioteca da Universidade 
o possui. 

FOGUETARIO (Ò) poema heróico ao muito sórdido, 
fétido e tórrido ^ Deos do fogo, o grande Vulcano, Se- 
nhor dos Ferreiros, Erector ^ das fumaças, Espalhador 



1 Tórrido, segundo Inocêncio; temido, segundo Mendes dos 
Remédios. 

2 Erector, seg. I; Director, seg. M. R. 



PORTUGUESES 55 

das faíscas, Imperador dos fogoens, espirros e escorvas ^ : 
pelo mesmo ^ herói do poema, o muito ^ reverendo có- 
nego Erostato Fogacho, Assoprador dos murroens da 
torre da pólvora *, Thesoureiro mor das buchas, Pro- 
curador ^ das escorias, Capataz e Director da presente 
torre do fogo dos Balbazes ^. Dado á luz ^ pelo Mor- 
domo-mór dos Cien-fuegos, censor das girandolas, quali- 
ficador dos montantes, e sacabuchas geral de todo o ar- 
tificio foguetal ^. Na Officina dos Cyclopes ®. 

Este poema, a que o autor chamou heróico por 
antífrase, é atribuído a Pedro de Azevedo Tojal, ba- 
charel em cánoneS; o qual, depois de ter enviuvado 
duas vezes, seguiu a vida eclesiástica, e faleceu 
em 1742 na quinta das Romeiras, em Santo António 
do Tojal, arrabalde de Lisboa. 

Do Foguetário existiam várias cópias manuscritas, 
algumas incompletas. Em 1884 o dr. Rodrigo Veloso 
planeou fazer imprimir em Barcelos este poema; mas 
a impressão não chegou a concluir-se. Em 1904 o edi- 
tor França Amado, de Coimbra, estampou uma cópia 
integral, que o sr. dr. Mendes dos Remédios encon- 

1 • Seg. M. R. fogoens, espinhos, escorvas e escórias. 

2 Falta esta palavra na cópia de M. R. 

3 Também falta esta palavra. 

4 Na cópia de M. R. — Consumidor da torre da pólvora, 

5 Na cópia de M. R. — Provedor. 

6 Na cópia de M. R. — Torre de fogo, sem as duas seguin- 
tes palavras. 

7 Composto pelo, na cópia de M. R. 

8 Na cópia de M. R. — de fogo. 

9 Segundo a cópia de I. 



56 POEMAS HEROI-COMICOS 

trou na Biblioteca da Universidade, reviu e precedeu 
de um erudito antelóquio. 

Consta o Foguetário de 6 cantos, em oitava-rima. 

O seu assunto é o fogo de artifício, obra de um 
cónego, pirotécnico-amador, que foi queimado por 
ocasião dos magnificentes festejos com que no ano de 
1729 quis D. João V solenizar em Lisboa os despo- 
sórios do príncipe do Brasil, D. José — depois rei 
deste nome — com a infanta espanhola D. Mariana 
Vitória; — festejos que também ficaram assinalados 
por um grande temporal. ^ 

• O poema é chistoso; mas a metrificação não isenta 
de defeitos, alguns dos quais talvez sejam da respon- 
sabilidade dos antigos copistas. 

No castelo de Lisboa armara o cónego pirotécnico 
uma torre que êle devia incendiar, e cuja altura teria 
dado rebate no olimpo, por se arrecearem os deuses 
de que fosse uma nova tentativa revolucionária dos 
Titans ^. 

O autor dessa gigantesca máquina foi denunciado 
a Júpiter por Juno e condenado a degredo no Etna, 
com trabalhos forçados nas forjas de Vulcano^ deus 
do fogo. 

(i Quem se prestou a conduzi-lo à Sicília, não por 
mar, mas por outro meio de transporte? 

Foi o famoso padre Bartolomeu Lourenço de Gus- 
mão, dito o Voador, também chamado o da Passarola, 



1 Este assunto também foi cantado por Tomás Pinto Bran- 
dão na silva Relação nova do fogo do CastellOf 1729, 



PORTUGUESES S7 

em razão das tentativas aerostáticas por ele realizadas 
na cidade de Lisboa, 74 anos antes dos irmàos Mont- 
golfier terem feito ascenções em França. 

É incontestavelmente uma trouvaille, que reforça o 
interesse da acção e a côr histórica do poema. 

O Voador não saiu bem tratado das mãos sa- 
tíricas de Pedro Tojal, como também não saiu das 
de Tomás Pinto Brandão, e outros humoristas da 
época. 

Pobre padre! êle foi um malhadeiro como todos 
os inventores, e o peor é que teve de expatriar-se para 
fugir às garras da Inquisição e de ir morrer misera- 
velmente num hospital de Toledo. 

Vénus toma a defesa do cónego -pirotécnico, e 
consegue que Júpiter Tonante, ouvido o conselho dos 
deuses, lhe perdoe finalmente. 

Então, já livre, o Foguetário é reconduzido à pá- 
tria no mesmo veículo aéreo. 

Emquanto os densos ares navegarão, 
'' Alternadamente forão conversando 

Nos infortúnios, que até ali passáfSo, 
Cada qual respondendo e perguntando, 
Té que com vento prospero chegarão 
A Vai de Cavallinhos, e deixando 
Ahi o Nauta ao Padre, em lom violento 
Deu hum estouro, e foi varando o vento. 

Restituído à pátria, o feliz cónego, herói da pi- 
rotecnia nacional, embasbaca as gentes alfacinhas fa- 
zendo queimar o seu fogo de vistas e reabilitando-se 



58 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

do fiasco originado pela chuva nas primeiras noites 
dos festejos reais. 

Em todo o poema, sào frequentes as liberdades 
de expressão, sobretudo as que se filiam nas frequen- 
tes comparações entre os estrondos do fogo de artifí- 
cio e outros. 

O Foguetário, escrito entre 1729 e 1742, é, por- 
tanto, anterior ao Hissope, que António Denis compôs 
em Elvas entre 1770 e 1772. 

António Maria do Couto designa o poema de To- 
jal pelo Título de Foguetaida. 

FRADALHADA (A) poema alvar devidido (sic) em 
trez cantos — Janeirada, Possidonio o Crú, a Borrada 
ou a Burrada, por ***. Lisboa, 1869. 

Esta sátira — pois assim deve classificar-se — tem 
por objecto os acontecimentos da política portuguesa 
em 1868: os tumultos do mês de janeiro no Porto e 
Lisboa; a queda do ministério da Fusão; a chamada 
do conde de Ávila ao poder, e logo depois a do mi- 
nistério presidido por Sá da Bandeira mas substan- 
cialmente caracterizado pelo bispo de Viseu (D. An- 
tónio Alves Martins), o qual tomou a chefatura do 
novo partido que saiu desses acontecimentos políticos 
com o nome de — reformista. 

A Fradalhada carece de valor literário e graça. 

Também da mesma época (1867-1869) conheço 
outra sátira política — Os heroes da época (Porto, 1869) 
igualmente insignificante. 



PORTUGUESES 59 



G 



GATICANEA, ou cruelissima guerra entre os cães, 
e os gatos, decidida em huma sanguinolenta batalha na 
grande Praça da Real Villa de Mafra. Escripta por 
João Jorge de Carvalho. Lisboa, 1781. 

Fizeram-se mais duas edições— 1817 e 1828. 

Este poema, em decassílabos pareados, tem 4 
cantos, e o seu assunto está claramente expresso no 

título. 

Não devemos atribuir ao autor a pretensão de 
querer imitar a Batrachomyomachia ou guerra dos ratos 
e das rans, que seria um bocejo de Homero (porque 
ele dormitava às vezes) se de Homero fosse. A Batra- 
chomyomachia, não podendo nós penetrar o sentido 
simbólico que porventura a valorize, é uma sensabo- 
ria inçada de nomes gregos, e mal avisado andaria 
quem se lembrasse de imitá-la. 

Nào, Joào Jorge de Carvalho nào teve esse des- 
propositado intento, antes se inspirou, como confessa 
na Prefação, que é também Argumento, num caso que 
um seu amigo lhe recomendou como bom assunto 
para uma epopeia jocosa. 

João Jorge desempenhou-se menos mal do encargo, 
sem esforço, e por vezes com graça: quanto a metri- 
ficação, salvou dignamente a honra do convento. 



60 POEMAS HEROI-COMICOS 

Ferida a grande batalha entre as hostes caninas e 
gatescaS; sào os cães que retornam vencedores. 

Uma das curiosas particularidades deste poema é, 
no canto 3.°^ a descrição do convento de Mafra: 

Elle tem quatro frentes , ou fachadas, 
Com janellas tão grandes, e rasgadas, 
E feitas com tal arte, que por bellas 
Hum poitico parece qualquer delias. 

Em duas ordens postas em redondo 
Tão bella perspectiva vão compondo, 
Que na primeira vista o pasmo ordena. 
Que nem as louve a voz, nem pinte a penna. 
Tal cumprimento tem qualquer dos lados 
Que os grandes Canzarões mais alentados, 
Vistos d'hu n'outro extremo mais, ou menos 
Cachorrinhos parecem mui pequenos. 

No frontispício a bella arquitectura 
Brilha com tão distincta formosura, 
Que julgo ser (e nisto bem me fundo) 
JVlaravilha maior de todo o Mundo. 

As ordens tosca Dórica, e Composta, 
A Jónica, a Corinthia bem disposta, 
Tudo se vê com gosto executado 
■ No grau mais singular, mais levantado. 

Columnas de grandeza portentosa 
No pórtico maior a vista goza 
Nas três portas soberbas, que na entrada 
Á perspectiva formão da fachada. 

Mil estatuas de mármores polidos, 

O chão todo em xadrez com embutidos. 



PORTUGUESES 61 

As torres, que nos lados vão subindo, 
Mil sinos pelos ares retinindo, 
Que sendo por mão destra ali tocados, 
Os minuetes formão bem trinados. 
Distinguem-se também nesta fachada. 
Por maravilha grande, e subhmada, 
Dois grandes torreões, que na grandeza 
Outros não tem a vasta redondeza. 
Hum zimbório soberbo, e sumptuoso, 
Que na Região Etherea do ventoso, 
E sublime hemisfério vai tocando 
As nuvens, que nos ares vão girando. 
De festões adornado, e bellas flores 
Formadas em diversas lindas cores, 
De pedras muito finas, e polidas. 
Na Região do vento suspendidas. 

O Senhor, que erigio este Edificio, 
Nos mesmos torreões do frontispício 
Mandou, que Paço Régio se fizesse, 
Que a seu grande poder correspondesse; 
No qual respira, sem contradição, 
A grandeza de hum Régio coração. 
Que a fama ha de cantar cõ gosto, e gloria, 
Emquanto neste mundo houver memoria. 

Quem era João Jorge de Carvalho? Nada se sabe 
a este respeito. Inocêncio baldou quantas diligências 
fez para averiguá-lo, e eu nào fui mais feliz. 

Vê-se que era homem regularmente instruído, por- 
que intercala no texto versos franceses e espanhóis. 
Também se vê que conhecia bem a Beira-Baixa, Coim- 
bra, Mafra, Ericeira e os arredores destas duas povoa- 
ções; mas nào é lícito concluir do poema que o autor 



62 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

fosse natural ou habitante de Mafra, antes me parece 
dever inferir-se de uma nota (a pág. 84 da 1.^ edição) 
que compusera a- Gaticanea longe dali, talvez em 
Lisboa. 

Por intermédio de um amigo meu, o amável pároco 
de Mafra rebuscou o registo dos óbitos daquela fre- 
guesia e apenas apurou que num dos lugares mais 
afastados da vila houve um João Jorge, que faleceu 
em 1769 e era viúvo de Antónia Rodrigues, o qual 
teve um sobrinho, cujo nome se não menciona. 

Seria arrojada hipótese supor que este sobrinho 
fosse homónimo do tio e autor do poema, tanto mais 
que a tradição oral em Mafra não conserva memória 
alguma do autor da Gaticanea. ^ 

GENEALOGIA PAPERIFERA, ou verdadeira arvore 
da geração do ill."^^ snr. D. Papel; Lisboa, 1811. 

O autor, João Pinheiro Freire da Cunha, foi pro- 
fessor de gramática latina e portuguesa em Lisboa, 
sua pátria, onde instituiu uma Academia Ortográfica 

GRAVES NADAS, poema heroi-comico, sequencia do 
Hyssope, por Teophilo Braga: na 2.^ edição das Folhas 
verdes. Porto, 1869. 

O ^sunto é tirado da 2.^ parte do «Argumento» 
do Hissope — isto é, relativo ao tempo em que o so- 
brinho do Deão, sucedendo-lhe neste cargo, continuou 
o pleito até que o Bispo, cheio de terror, se retratou. 

O poema, em verso solto, abrange 4 cantos; nêle 
figuram algumas das personagens do Hissope. 



PORTUGUESES 63 

Teófilo Braga elaborou-o antes de 1860, e cha- 
ma-lhe «velleidade de criança>. 

Aditou-o com várias notas extraídas do Ms. da 
Universidade a que nos referimos no Hissope, quando 
mencionamos a eciição deste poema feita pelo dr. Ro- 
drigo Veloso. 

GREGOREIDA ou Aventuras d'um filho d' Alijó dos 
Vinhos em Lisboa, durante as festas do centenário de 
Camões. Poema em oitava-rima composto e escrito por 
Gregório Antunes Falcào, substituto do escrivão do 
juiz ordinário d'aquella importante comarca e copiado 
do original manuscripto pelos siamezes do Occidente, 
Castor & Pollux. Lisboa, 1880. 

Este poema conta as supostas impressões do seu 
autor na visita que fez à capital por motivo do tri- 
centenário de Camões. Contém 57 oitavas, em boa 
metrificação, e com benigna maledicência. 

Refere-se ao cortejo cívico e a algumas individua- 
lidades do mundo político e literário. 

Numa só oitava inclui a comissão executiva das 
festas camoneanas em Lisboa: 

A toda a gente causa grande espanto 
Do Eduardinho 1 a calva monstruosa, 
Do Luciano 2 o queixo a vêr-se tanto, 
Do Chagas 3 as bochechas côr de rosa; 

1 Eduardo Coelho. 

2 Luciano Cordeiro. 

3 Pinheiro Chagas. 



64 POEMAS HEROI-COMICOS 

Do Pequito 1 o nariz que põe ao canto, 
Lá do Egypto a pyramide famosa ; 
E a muitos inda dá no goto hoje 
Ramalho 2 ir côr de burro quando foge. 

Ironiza o facto do ministério progressista não se 
ter encorporado no cortejo: 

Ministros nem por sombras, o governo, 
Que rege e manda em cousas do paiz. 
Foi de Camões amigo para o inverno, 
Descer dos altos sólios jamais quiz. 
Nem Barros 3 da fazenda de olhar terno, 
Nem outro que Luciano 4 aqui se diz, 
Que em cousas d'esta ordem não são finos 
E mais do que estadistas são Calinos. 

Contrapõe àquele estranho facto o procedimento 
do estimado e popular presidente da câmara munici- 
pal, José Gregório da Rosa Araújo: 

Mas quem levou a palma foi o illustre 
Gregório que também se diz José 5; 
Se a Musa da epopeia me der lustre 
Em verso hei^de mostrar o que elle é. 
Mas porque a minha penna não deslustre 
Outros que nada valem d'elle ao pé, 
Apenas eu direi que a presidência 
Viu tudo desfilar em continência. 



1 Rodrigo Afonso Pequito. 

2 Ramalho Ortigão, que trajava um fato cinzento, de passeio. 

3 Henrique de Barros Gomes. 

4 José Luciano de Castio. 

5 José Gregório da Rosa Araújo, que teve a aícunha de Câcâ. 



PORTUGUESES 65 

Por entre os kodaks das pessoas em evidência 
nesse dia e nessa época, deslizam, como exigua acção, 
as peripécias, as aventuras da viagem do autor, arvo- 
rado em protagonista. 

Finalmente, êle regressa à sua imaginária terra 
natal, Alijó dos Vinhos, despedindo-se do leitor: 

Esta noite lá volto pr'a botica, 
Mas um grande poema ahi lhes fica. 



H 



HERCULEIDA (A) por António Gomes de Oli- 
veira. 

O sr. Ramos Coelho {Hyss. 1879) menciona este 
poema como satírico ou herói-cómico. Inocêncio nào 
lhe dá a mesma classificação. 

Pela cópia do 1.** canto que existe na biblioteca 
ia Academia das Sciências, parece-nos que se trata 
ie um poema mitológico, no gôsío da tabula de Poli- 
^emo e Galatea, ou de outros poemas seiscentistas. 

O autor, que era natural de Torres Novas e seguiu 
i carreira das armas, cultivou a poesia e a língua cas- 
elhana, que é aquela em que se propôs escrever a 
íerculeida. 



66 ' POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Damos como eloquente amostra da semsaboria do 
poema a sua I.* oitava: 

Ardor PieriD me encendió la mente 
para cantar el Príncipe Thebano, 
que armado el pecho de valor ardiente, 
armo de clava la robusta mano: 
Aquel justo, aquel fuerte, aquel prudente 
debelador de monstros Soberano; 
que la gran pátria liíertó oprimidaj 
y con Hebe merece immortal vida. 

HOS TIA (A) de oiro, poema heroi-comico por J. Si- 
mões Dias. Elvas, 1869. 

Consta de 10 cantos, em verso solto. 

O intento do autor foi «combater principalmente 
o vicio da avareza personalisado em Paulino Segis- 
berto, que se nos afigurou nas sociedades modernas 
um typo obnoxio, condemnado pela economia que 
permittindo a usura reprova o monopólio, e pela cari- 
dade christà, que manda repartir pelos necessitados as 
sobras dos nossos haveres». 

Simões Dias foi, nào há dúvida, um notável poeta, 
principalmente lírico; por isso A hóstia de oiro nào é, 
nem podia ser, o seu melhor livro. 

Coincidência interessante: este poema foi escrito 
em Elvas, a mesma cidade onde António Denis com- 
pôs o Hissope, e até na mesma rua, a de S. Francisco, 
em que Denis residira. 

Os dois prédios ficam fronteiros um ao outro. 

Aquele em que Simões Dias habitou tem o nP 10-A. 



PORTUGUESES 67 

HISSOPE (O), pgema heroi-cómicD de Antóni3 
Denis da Cruz e Silva. 

A 1.* ediçàO; impressa em Paris, 1802 (e nào em 
Londres como se declara no frontispício) três anos 
depois da morte do autor, foi proibida pelo governo 
português, mas alguns exemplares escaparam, e eu 
possuí um. 

Em 1803, sob o domínio da primeira invasão 
francesa, fez o livreiro Rolland uma 2.^ edição, em 
Lisboa, para o que obteve licBnça do governo intruso. 
Mas depois da retirada de Junoí a polícia portuguesa 
manteve a proibição do Hissope. Desta 2.^ edição, que 
é a reprodução da 1.'^, também possuí um exemplar. 
Ela nào escapou a Inocêncio, como supôs o meu ilus- 
tre amigo Sr. João Ribeiro (Vide Dic. Bib., tomo I, 
pág. 125). 

Seguiram-se as edições de Paris em 1817 e 1821^ 
ambas revistas, prefaciadas e anotadas pelo erudito 
Timóteo Lecussam Verdier, que foi contemporâneo de 
António Denis, pois nasceu em 1754 e faleceu em 
1831. 

Estas duas edições são ilustradas com a mesma 
estampa, que representa a entrega do hissope ao 
Bispo pelo Deão. 

A de 1817 corrigiu-a Verdier sobre a de 1802; 
e a de 1821 sobre a de 1817 e pelo confronto com 
algumas cópias, que o autor mandara tirar para satis- 
fazer pedidos, mas faltou, como base segura, o ma- 
nuscrito originário. 

Tanto a edição de 1817 como a de 1821, espe- 



68 POEMAS HERÓI-CÓMIDOS 

cialmente a última, mereceram a estimação dos biblió- 
filos; e não é fácil encontrá-las. 

Em 1834 fez-se em Paris a 5.^ edição do Hissope, 
microscópica, in 32, sob a direcção de José da Fon- 
seca e incluída no tomo VI do Parnaso Lusitano, que 
é o dos Satyricos Portuguezes. 

No mesmo ano o livreiro Nunes Esteves imprimiu 
em Lisboa uma edição bordalenga, cópia incorrecta da 
de 1808. 

Em 1876 o ilustre bibliógrafo dr. Rodrigo Veloso 
reproduziu em Barcelos a edição de 1817, enriquecida 
não só com as notas de Verdier, mas também com 
outras extraídas da cópia (Ms. 402) existente na Bi- 
blioteca da Universidade de Coimbra e da cópia quê 
possuiu o dr. Augusto Filipe Simões, além de algu- 
mas outras notas da própria lavra de Veloso. 

Em 1879 o sr. José Ramos Coelho publicou em 
Lisboa a 8.^ edição, chamada grande, e, segundo de- 
clara, alterou o texto do Hissope em mais de 250 lu- 
gares; mas prefaciou e anotou esta edição crítica^ 
proficientemente, e fê-la acompanhar de desenhos 
ilustrativos. 

Em 1886 estampou-se no Porto (Imprensa Real, 
Praça de Santa Teresa) uma edição popular, a tostão. 

É cópia da de 1802. 

Em 1910 a casa Garnier; do Rio de Janeiro, deu 



,1 Inocêncio Francisco da Silva e o dr. Francisco de Paula 
Santa Clara (elvense) morreram sem ter chegado a publicar as edi- 
ções críticas do Hissope, que dedicadamente preparavam. 



PORTUGUESES 59 

a lume uma nova edição dos Safyricos portuguezes, na 
qual vem incluído o Hissope, conforme a edição de 
1834, mas valorizado por importantes anotações de 
João Ribeiro. 

Em 1911 publicou-se em Coimbra uma edição 
escolar do Hissope, prefaciada, revista e anotada por 
Adriano A. Gomes, professor do liceu central daquela 
cidade. 

Nada adianta. 

Uma enumeração completa das edições do Hissope 
há de o leitor encontrá-la, sob este mesmo título, na 
escrupulosa monografia do sr. general Francisco Au- 
gusto Martins de Carvalho — 1921, Coimbra. 

Hissope não pode deixar de ser apreciado na 
sua relação de subseqiiência e de género com o Lu- 
trin (Estante do coro), que lhe ser\MU de modelo e 
cujos úhimos cantos foram publicados mais de 80 
anos antes, contados não até à 1.^ edição do poema 
português, mas até à época em que António Denis foi 
para Elvas, onde o compôs. 

Procuraremos, pois, apreciar os dois poemas tanto 
nessa relação comparativa, como também no valor in" 
trínseco de um e outro. 

Lima Leitão reputava a Estante do coro como o 
*non píus ultra» dos poemas joco-sérios. 

Rebelo da Silva \ considerando o Hissope como 
livre imitação do Lutrin (não no sentido de cópia, mas 
de analogia por sugestão), nota que o desenho das 

1 o Panorama, XIII, pág. 291. 



70 POEMAS HEI^ÓI-CÓMICOS 

fisionomias e dos costumes oferece rasgos e atrevi- 
mentos que abonam sem parcialidade os louvores ge- 
ralmente conferidos a António Denis: por isso o clas- 
sifica de primeiro poema cómico português, como já 
Garrett o tinha classificado. 

Teófilo Braga assinala «a riqueza dos typos e das 
anecdotas» ^ que António Denis agrupou no seu 
poema. Em outro lugar, o mesmo escritor «classifica 
de maravilha de gosto e de talento o Hissope»^. 

Percebemos esta opinião, posto que a palavra 
maravilha seja excessiva; mas já nào' percebemos a 
razào por que diz ser a falta de decoro a «pequena 
macula» do Hissope^. Falta de decoro! Em que? Na 
linguagem ou nas situações? 

Poderá haver uma ou outra liberdade de expres- 
são—só nos lembramos de uma única no canto 1.* 
— mas falta de decoro nas situações é censu/a que 
nào poderá demonstrar-se documentalmente. 

Pela minha parte direi — já que me encontro em 
frente deste assunto — que só reconheço no Lufrn, 
em relação ao Hissope, duas espécies de vantagens: 

A primeira é a da precedência cronológica, o que 
aliás não envolve a ideia de originalidade, porque 
Boileau inspirou-se, pelo menos, na Batrachomyoma- 
chia mal atribuída a Homero e no Balde roubado de 
Tassoni, a que êle próprio se refere no seu poema: 



1 A Arcádia Lwiliarta, pág. 577. 

2 Eitudos da Idade-tnéilla, 237. 

3 Mes;na obra, pág. 246. 



porTtugueses 71 

Ó toi tí, snr ces ^ords ■u'une eau dormante mouille, 
Vis combatre autrefois le rat, et Ia gienor.ilh; 
Q'i, par L*s traits harois d'un bimrre linceau, 
Míj ritalii en feu pour la perte d'un seau; 
Muse, prête à ma bouche une voit plus sauvage. . . 

Por sua vez António Denis inspirou-se no Lufrin, 
o que leal e francamente indica no canto I quando 
diz: 

Musa, tu, que nas margens aprazíveis, 
Que o Sena borda de arvores viçosas, 
Do famoso Boihau a fértil mente 
Abrazaste benigna, tu me inflamma. 

A segunda vantagem é propriamente o labor lite- 
rário, mais perfeito em Boileau, que foi, como Ho- 
rácio e Castilho, um mestre de Poética. 

António Denis irao se esmera na metrificação: o 
verso corre naturalmente, mas às vezes frouxo e obri- 
gado a hiatos. 

Já nào quero imputar-lhe a culpa de algum verso 
mais infeliz, como aquele, violento e cacofónico do 
canto V: 

Com 'strondo se assoa e dobrado o colhe, 

porque nem este verso, nem os seis antecedentes e os 
quatro subsequentes estavam na cópia que serviu à 
1.* edição: por isso nào sei se é do autor ou de ou- 
trem a paternidade desse verso realmente desastroso. 
Alguma razão teve Camilo para acoimar a «frou- 



72 P0EMAS HERÓI-CÓMICOS 

xidão prosaica»^ dos versos do Hissope, ainda que 
seja certo não morrer Camilo de amores por António 
Denis. 

Mas nào padece dúvida que há espontaneidade 
métrica neste poeta, fluência natural, como não lhe 
deixou de reconhecer o maledicente Padre José Agos- 
tinho nos seus rancorosos Burros, circunstâncias que 
tornam insuspeito o juízo: 

Algum tora liberal guarda nos versos, 
Parece que lhe caem de fácil veia. 

E Garrett, depois de ter falado de Garção, com- 
para António Denis a «mais caudalosa, porém menos 
pura torrente» ^. 

Quanto à linguagem., melhor direi ao vocabulário, 
nota-se-lhe pobreza de adjectivaçào: um dos epítetos 
que êle mais repete em todos os cantos do Hissope é 
o adjectivo — grande. 

Verdade seja que fica em boa companhia, porque 
Luís de Camões, Bocage e Garrett tiveram também o 
seu adjectivo — bordão ^. 

Admitindo que transitem em julgado as duas van- 
tagens já reconhecidas ao Lutrin sobre o Hissope, tere- 
mos ainda a compensá-las a consideração de que no 
poema português, escrito inicialmente duma assentada 
em. dezassete dias, há mais unidade de arquitetura e 

1 Curso de lii. porig., pág. 187. 

2 Bosquejo da hisL da poesia e língua portg., pág. 205. 

3 Camilo, Curso, pág. 259 e 353. 



PORTUGUESES 



73 



acçào, mais correntia naturalidade que no poema fran- 
cês, o que deve atribuir-se ao fa:to de Boileau ter 
composto os quatro primeiros cantos entre os anos 
de 1672-1674 e os dois últimos em 1683. 

Assim, pois, suponho que o mérito total do His- 
sope e o mérito total do Lufrin se equilibram por con- 
siderações compensadoras em favor de um e outro — 
dando-se a cada um o que lhe pertence de melhor. 

Em alguns episódios António Denis sobreleva o 
mérito de Boileau. 

No do Jardim dos Capuchos (canto V) atingiu 
uma graça bem sua própria e bem portuguesa. 

Rebelo da Silva acha este episódio extenso, mas 
convém recordar a abundância de estátuas de pedra 
que embonecavam os nossos antigos jardins mona'sticos 
e fidalgos: as referências nào nos parecem demasiadas. 

No assunto do poema manifestamente Denis apro- 
veitou o conflito de Elvas por sugestão de Boileau, 
o qual, pela sua parte, colheu a acção do Lufrin numa 
conversação em que certo provincial contou a anedota 
da estante do coro. 

Daquela sugestão resultou (jue no Hissope temos 
a mesma briga entre dignitários da igreja: o que se 
passa entre o Chantre e o Bispo de Coutances no 
Lutrin passa-se entre o Deão e o Bispo Lencastre no 
poema de António Denis, 

O pomo da discórdia é lá a estante do coro; aqui 
é o hissope. 

Em ambos os poemas falta o elemento feminino 
acompanhando a acção; apenas no Hissope aparecem 



74 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

fugazmente a ama do Deão e a mulher do es:nvão 
Gonçalves, à qual corresponde no Lutiin a mulher do 
cabeleireiro Amour. 

Vários episódJDS de carácter maravilhoso, que no 
século XVIII se julgava ainda ser indispensável nos 
poemas deste género, compensam-se numa e outra 
composição. 

Bastará mencionar no Lutrin a consulta à Sibila 
Chicana e no Hissope a consulta ao astrólogo Abraca- 
dabro; o episódio do grilo profético no Hissope e do 
mocho sinistro no Lutrin; e em ambos a personifica- 
ção da Discórdia; as moles sestas, as fartas comesai- 
nas e os pressagos sonhos dos reverendos, etc. 

Não há dúvida, como observou Rebelo da Silva, 
que os comparsas do Hissope são numerosos, e bem 
desenhados, ainda quando o sejam rapidamente. 

. Mas António Denis não ficou inferior, nem talvez 
superior, à galeria de figurantes do Lutrin. 

Agora, onde Denis se avantajou a Boileau, incon- 
testavelmente — e isto é mais uma compensação para 
manter o equilíbrio entre os dois — foi no último 
canto, que no Lutrin é frio e grave, conhecendo-se o 
esforço do autor, por êle próprio confessado para 
concluir a sua empresa; ao passo que o 8.° canto do 
Hissope é vivo e rico de incidentes cómicos. 

Em conclusão, julgo que injustamente afronta An- 
tónio Denis quem reputa o Lutrin o non plus ultra dos 
poemas joco-sérios; e que injustamente agravaria Boi- 
leau quem se lembrasse de colocar o Hissope num 
plano absolutamente superior ao do Lutrin, 



PORTUGUESES 75 

Por outro lado, a acusação de plagiário vibrada 
contra Denis nào tem razão de ser; o dr. Cari Reinhar- 
dstrettner, alemão, cujo voto é autorizado e nào pode 
ser suspeito, repeliu em 1877 essa acusação injusta. 

Sugestão é uma coisa; e o plagiato é outra coisa, 
aliás bem diferente. 

Assim como nós, os portugueses, fizemos honra 
ao poema de Boileau, que já encontrou em Portugal 
três tradutores ^ também a França fez honra ao His- 
sope, que foi traduzido em francês por J. F. Boisso- 
nade — sendo para notar que esta tradução conta três 
edições '-, a última revista por Ferdinand Denis. 

Apreciado o Hissope exclusivam.ente em relação à 
literatura portuguesa, deve reconhecer-se que, na co- 
tação dos méritos, êle é o nosso primeiro poema 
herói-cómico, posto o nào seja cronologicamente, por- 
que o precederam a Monoclea, o Foguetário e a Ben- 
teida. 

Vide Graves nadas. 



Li ^ que o erudito António Luís Ferreira Girão, 
quando estudante em Coimbra, compuzera sobre dis- 
córdias académicas, uma paródia ao Hissope, que teria 



1 o dr. Lima Leitão, 1834; o visconde de Vilarinho de 
S. Romão, 1834, e J. S. S. (Braga, 1839). 

2 Le QoupiUon, Pa Í3, 1828; ParÍ5, 1867; Paris, 1876. 

3 O Tripeiro de 1 de Maio de 1919. 



70 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

sido publicada num jornal de Coimbra, mas da qual 
suponho nào se haver feito separata. 

* 

O sr. general Martins de Carvalho publicou em 
apenso ao seu opúsculo As edições do Hyssope um 
post scriptum contendo rectificações, tamanho foi sem- 
pre o seu escrúpulo de bibliógrafo. 



O sr. Edgar Prestage publicou uma tradução em 
inglês do canto V do Hissope: Manchester, 1876. 



J 



JANTAREIDA (A). 

Vide Lusiadas (paródias aos). 

/ERIÇADA (A) poemeto heroico-buriesco em 4 can- 
tinhos, dedicado ás banliistas de Matosinhos — Setem- 
bro — 1884. 30 páginas — 8.°. 

Em quadras rimadas; com ilustrações caricaturais. 
O exemplar que eu consultei, pertence ao sr. capitão 
Ferreira de Lima. Nào indica o lugar de impressão. 



PORTUGUESES 77 

Principia este poema descrevendo um passeio em 
jericos desde Matozinhos à praia tie Arnosa de Pampe- 
lido, onde se levanta a chamada «memória do Mindelo». 

Vão senhoras e homens em alegre companhia, 
rindo dos habituais episódios da locomoção asinina — 
principalmente os infalíveis trambolhões. 

À volta comem o seu farnel no adro da capela da 
Boa Nova, passeiam depois à beira-mar, trepam ao 
mais alto penedo — bons equilibristas ! — mas o autor 
do poema e um companheiro adormecem, o que in- 
digna as damas. 

Fomos alvo da troça das donzelas. 
Dormir ao pé das damas é peccado, 
que nenhuma que eu saiba ha perdoado. 
Se temos por dever velar por elas ! 

O regresso dos piqueniques é sempre mais aciden- 
tado do que a partida, sobretudo quando os burros 
podres acham maior o peso da carga e a alijam. 

Foi o que aconteceu. 

Finalmente, os improvisados cavaleiros e amazonas 
entram em Leça da Palmeira, e são recebidos com 
uma ovação, a ponto do autor nos dizer: 

Então julguei-me rei. Fiz imponente 
parar a cavalgada num momento, 
exclamando do alto do jumento: 
«Obrigado meu povo! Estou contente!» 

O poema termina pela defesa do burío; menos 
um, que é zurzido nas três últimas quadras. 



78 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

r 



Como post-scriptum, vem ainda alguns versos do 
seu amigo Teófilo Faria \ lançando-lhe a respon- 
sabilidade de ter feito que o poema viesse a 
público. 

Ora o autor, segundo pude averiguar, foi o bacha- 
rel em direito António Lúcio Tavares Crespo, conser- 
vador do registo predial no 1.*^ bairro do Porto e de- 
putado às cortes nas legislaturas de 1865-1868, 1880- 
-1881, 1887-1889, 1890 (sessào única). 

Das suas aptidões literárias e humorísticas deu 
testemunho, antes da publicação deste poema, um tre- 
cho do discurso que pronunciou na sessào de 19 de 
março de 1880, quando na câmara electiva se dis- 
cutia o projecto de alterações à lei do selo. 

Eu o ouvi, esse trecho, e o reproduzo dos anais 
parlamentares: 

«No regulamento de 14 de maio de 1878 vejo o 
nome illustre do meu sympathico amigo, o sr. Tho 
más Ribeiro. 

«Estào ali assignados os srs. Fontes Pereira de 
Mello, presidente do conselho da situação transacta, 
Sampaio, Barjona de Freitas, Serpa, Thomás Ribeiro, 
Corvo e Lourenço de Carvalho. Quando vi o nome do 
meu antigo amigo o sr. Thomás Ribeiro assignado 
n'aquelle regulamento, lembrei-me dos maviosíssimos 
versos do seu livro intitulado D. Jayme, versos que 
peço licença para recordar à camará, a fim de nos es- 

1 Teófilo Leal de Faria faleceu em 24 de Junho de 1915, 
na casa da sua residência, estrada de Bemfica. 



PORTUGUESES 79 

quecermos por um pouco das agruras e da monotonia 
destas questões jurídicas. 

«O sr. Thomás Ribeiro, descrevendo o amor filial; 
acariciando um pae valetudinário, comparou-o á hera 
que se enrosca nos muros e que, com vigor extraor- 
dinário, suspende á beira do precipício as velhas mu- 
ralhas de um castello ermo e derrocado. Feliz imagem 
e felicíssimos versos! 

«São como a hera viçosa 
«Os filhos do nosso amor ! 

«Pois, sr. presidente, lembrei-me de parodiar os 
versos do meu illustre amigo sr. Thomás Ribeiro. 
S. ex.^ disse-nos em excellentes estrophes, com aquella 
intelligencia que o distingue, com aquella frase elevada 
que todos lhe conhecemos, o seguinte: 

A hera, filha do muro, 
■ Foi-se alargando e cresceu ; 
Em cada cantinho escuro 
Cada raiz se prendeu. 
Entre cada fenda estreita, 
Nova vergontea se ageita. 
Do muro em toda a largura 
Contorce a altiva espessura 
Gira, enrosca-se e venceu; 

«Nào affirmo se a reproducçào dos versos estará 
fiel, porque os cito de memoria. 

«Será como a hera, filha do muro, o sêllo, filho do 
fisco ? 



80 * POEMAS HEROI-COMICOS 

«Peço ao meu illustre amigo que me desculpe o 
gracejo innocénte da parodia, que apenas exprime o 
meu respeito pelos elevados dotes intellectuaes do 
illustre deputado. 

«Digo eu também: 



*e>' 



O sêllo, filho do fisco 
Foi-se engrossando e cresceu ; 
Em cada papel arlico 
Cada verba se metteu. 
Em cada escriptura feita 
Nova estampilha se ageita. 
Do fisco em toda a grandeza 
Tributa o povo e a nobreza. 
E o deficit. . . não mo.reu !. . . 



(Risos). 



Tavares Crespo faleceu em abril de 1905. 
Veja-se a seu respeito O bacharel António Lúcio Ta- 
vares Crespo, fotografado por João Borges. Porto, 1890. 

JORNADA AO DOURO (UMA), poema em três 
cantos por F. A. M. S. Porto, 1855. 

O assunto deste poema está enunciado no título; 
e o protagonista é o seu próprio autor. 

Os episódios das antigas jornadas a cavalo, a des- 
çomodidade e carestia das estalagens, as noites mal 
dormidas pelo assalto de parasitas ferozes, os perigos 
dos caminhos ainda maiores que os das estalagens, so- 
bretudo na penhascosa província duriense, acidentam 
còmicamente esta longa odisseia desde o Porto até Er- 
vedosa do Douro, a par de outros episódios de pura 



PORTUGUESES 81 

fantasia, tais como o congresso de taberneiros para o 
autor saber qual o vinho que deve preferir, a aparição 
mitológica do deus Baco, que descavalga de uma 
pipa para do alto de um monte mostrar toda a vasti- 
dão dos seus domínios e, finalmente, a descrição do 
suntuoso palácio da mesma divindade, onde brotam 
de fontes abundantes os mais preciosos vinhos. 

Este poema, todo composto em oitava-rima, tem no 
fim a seguinte data: Santo Thyrso, 26 de Junho de 1854. 

Pelo texto da primeira estância do canto primeiro 
parece dever supòr-se que o autor foi desde Santo Tirso, 
onde residiria, ao Porto para daí seguir por Valongo, 
Penafiel, Amarante até à Régua, e depois a Ervedosa. 

Na instância final do último canto, o autor, cuja 
identidade aliás nào pude descobrir, inculca-se como 
pessoa de poucos haveres: 

Adeos vos digo agora, meus leitores, 
Que o estômago quer lhe deite um calço; 
A vossa protecção, nobres senhores, 
Prestai a um cidadão de pé descalço; 
Acreditar podeis meus dissabores, 
"*■ Que nada aqui vos diz que seja falso, 
Quem se viu ao findar jornada tal 
Sem burro, sem calçado e sem real. 

E, realmente, se o autor dispusesse de recursos 
pecuniários, bem se poderia ter dispensado de lazer 
parte da jornada em bucéfalo, porque já entào havia 
carreiras regulares de diligência entre o Porto e a 
Régua para os viajantes que tinham medo ao rio 
Douro. 



82 POEMAS HEROI-COMICOS 

Pois a verdade é que o poema; conquanto não 
seja isento de defeitos, vale mais do que a algibeira 
do autor valia. 



Já depois de escrito este artigo, um tirsense meu 
amigo comunicou-me que o autor deve ter sido um 
Francisco Moreira, em tempo residente na vila de 
Santo Tirso, homem de aptidões poéticas, e ali bem 
visto, o que lhe permitiu viver, «apesar de pobre e 
modesto, na roda dos engravatados». 

Era aparentado, diz o meu informador, com a fa- 
mília dos Wenceslaus brasileiros. 

Francisco Moreira morreu tuberculoso. 

Ultimamente descobri em uma das notas do livro 
Penafiel, do sr. Coriolano de Freitas Beça, algumas 
notícias interessantes acerca do poema Uma jornada 
ao Douro. 

sr. Beça indica aquele mesmo Francisco Mo- 
reira (Francisco António Moreira da Silva) como au- 
tor do poema, posto não tenha absoluta certeza, pois 
que ao nome do suposto autor acrescenta um sinal 
interrogativo. 

Mas diz-nos aí que seu pai, dr. Rodrigo Beça, es- 
pirituoso folhetinista ^ do antigo jornal portuense 
Porto e Carta, publicara nesse jornal uma chistosa 
crítica sobre o autor e o poema; bem assim que Faus- 

1 Com o pseudónimo de Padre Serapião d' Algures, 



PORTUGUESES 83 

tino Xavier de Novais chasqueara o autor com esta 
excessiva troça: 

Poemas, que tenho visto, 
Por costume um heroe cantam; 
Mas neste dons se levantam — 
Burro e vate! Eu gosto disto. 
Mas ainda assim não resisto, 
Chamem-me embora casmurro, 
A perguntar se este zurro, 
Este grande disparate, 
Nos mostra que o burro é vate 
Ou prova que o vate é burro?! 

JORNADA ás cortes do Parnaso por Diogo Ca- 
macho. 

Com este pseudónimo se mascarou Diogo de 
Sousa, que era natural de uma povoação do bispado 
de Coimbra e do qual apenas se sabe que procedia 
de família distinta, frequentou a Universidade e exer- 
ceu a advocacia naquela comarca. 

A Jornada andava encorporada na Fénix Renas- 
cida, tomo V; e só em 1749 foi impressa em separado. 

Pode considerar-se poema herói-cómico, como ou- 
tros poemas deste género, cuja acçào é a narrativa 
humorística de viagens; mas a oitava-rima foi substi- 
tuída por tercetos, com acentuada feição literária. 

O autor, percorrendo imaginariamente diversos 
países da Europa, descreve os costumes desses países 
naquela época, especialmente os literários (cultera- 
nismo). 



84 POEMAS HEROI-CÓMICOS 

Mas, superior aos defeitos dos gongoristas, ri-se 
dêleS; e evita-os. 

D. Francisco Manuel, no Hospital das lettras, in- 
clui Diogo de Sousa entre os poetas de «conhecido 
e levantado espirito», que não chegaram a vêr impres- 
sas suas obras. 

Portanto, a morte de Sousa deve ter ocorrido an- 
tes de 1728, que é a data do V tomo da Fénix Re- 
nascida. 

Costa e Silva considera a Jornada a mais bela 
composição que possuímos no estilo burlesco. 

Pinheiro Chagas "^ e Teófilo Braga ^ fazem elogios 
à obra e ao autor. 

Finalmente, Camilo Castelo Branco, no Curso de 
Utteratura, aprecia com louvor a Jornada dizendo: 
«O boleio da phrase é seiscentista, na melhor monção 
das musas d'esse cyclo. O século transcurrido, desde 
a eschola florentina até á corrupção importada de 
Castella, parece que lhe opulentou o thesouro linguis- 
tico, ensinando-lhe o meneio e a malleabilidade 
d'aquellas phrases rijas e ásperas dos Ferreiras e Ca- 
minhas. Ha ahi versos que se fazem admirar, a um 
tempo, pela agudeza do chiste e pela vernácula adje- 
ctivação». 

Depois queixa-se dos erros grosseiros das cópias, 
pelo confronto com o manuscrito original que possuía, 
em partes alterado pelo autor. 

1 jornal do Commercio n.os 3952 e 3953. 

2 Estudos da idade-média, pág. 243. 



PORTUGUESES S5 

juízo (O) final e o sonho do inferno, poema em 3 
cantos por C. F. B. C. Branco — Porto, 1845. 

O autor foi Camilo Castelo-Branco (Camilo Fer- 
reira Botelho Castelo Branco). 

O assunto é fantástico — o sonho de uma viagem 
ao in-ferno, num tom de crítica irónica, mas benigna. 

Recorda-te, leitor, que eu fui levado 
No cerro do dragão ao negro abysmo: 
— De tudo quanto vi te darei parte 
S'o animo fajudar p'ra tanto ouvires. 

Não se encontra neste* poemeto, bem como nos 
Pundonores desagravados, a promessa de que o autor 
viesse a ser um dos m.aiores escritores de que Portu- 
gal se ufana. 

Vide Pundonores desagravados. 



L 



LAZARETO (O) DE LISBOA, poema heroi-cómico 
em 5 cantos por Liidovicas. Lisboa, em S.^. 

Este poema, a julgar pelo texto da 1."^ oitava do 
canto quinto, foi composto por um jornalista portu- 
guês, mas certamente residente no Brasil durante 
longo tempo, pois sào frequentes na sua linguagem 
,08 brasileirismos. 

O autor conta galhofeiramente os horrores por que 
passavam os quarentenários no lazareto de Lisboa. 



86 POEMAS HEROI-COMICOS 

Êle próprio foi uma das- vítimas desses horrores, 
e vinga-se recordando-os em alegre' oitava -rima, nem 
sempre feliz e correcta — especialmente nas consoantes. 

Apenas o prólogo, que o autor chama Annuncio, 
é escrito em estrofes de quatro versos: 

Eu canto o Lazareto, os seus mysterios, 

Fedores e extorsão; 
Meus versos são por vezes joco-sérios, 

Outras vezes não são. 

Dos serventes eu canto as gentilezas, 

E dos guardas também; 
Canto as gordas propinas e espertezas 

Que a empreza mantém. 

Também canto as torturas que lá dentro 

Oito dias soffri ; 
As moscas na comida em vez de_^ coentro, 

E tudo o que eu lá vi. 

Etc. 

É um desenfado de viajante inteligente, sem o 
«veneno da maldade» e apenas com propósitos galho- 
feiros, como o autor declara na última oitava. 

Êle nào quis de modo nenhum denegrir Lisboa ^ 
à conta do Lazareto. 

LOBINHO (O) PHILOLOGICO, poemeto jocoserlo 
por Affonso Gayo. (Com um prefacio e o retrato do 
auctor). Lisboa, 1897. 

O autor conta, no Prefácio, como desabafara em - 
quatro cantos de decassílabos rimados, e em nào 
maior espaço de tempo que um mês, o tédio que lhe 



PORTUGUESES 87 

causaram as lições de Filologia no Curso Superior de 
Letras. 

Não visa no poema a atacar a competência do 
professor, nem a utilidade da sciência; condena ape- 
nas o métodO; que reporta excessivamente pesado e 
asfixiante. 

O quarto canto, durante o qual a aula de Filolo- 
gia funciona/ é o mais interessante de todos — pelo 
movimento e péla variedade. 

LOGRAÇÃO DA PRELASIA REGULAR DE SAN- 
TARÉM: Epopea faceta, por um Sacerdote de Apollo, 
Bacharel na Sé das Musas, Dedicada ao M. R, P. Fr. 
António do Espirito Sancto, Prior no convento dos Gril- 
los, em Santarém. 1769. 

O autor é Joào Pedro Xavier do Monte. Veja-se o 
que dele dissemos no artigo Chumacinho furtado. 

A Logração consta de 6 cantos, tendo ao todo 191 
oitavas. 

Proposição do assunto: 

Cantem outros varões assignalados 
Grandes de Santarém, que antigamente 
Em perigos e guerras esforçados 
Um brazão lhe fizeram permanente: 
Eu canto agora o logro dos prelados, 
Que nesta villa vivem santamente; 
Cante lá quem quizer altas façanhas. 
Que eu cantarei diversas, mas tamanhas. 



lu ckr 



Eu cknto um prior sábio e circumspecto, 
Que na fina invasão da ratonice. 



88 POEMAS HEROI-COMICOS 

Com manha mui sagaz, peito discreto, 
Dos golpes escapou da ladroice; 
Que na Arte de fartar posto no recto, 
Contravenida u^u, que não cahisse, 
Quando outros do seu cargo lamentaram 
Cortejos, e dinheiro que largaram. 

Vide Sapatos de setim. 

LONGUINHEIDA (A). O rabequista portuense Au- 
gusto Marques Pinto, estando em Braga com Gui- 
lherme Braga, escreveu por desfastio dois cantos de 
um poema herói-cómico assim chamado. 

O assunto, como o ^tulo indica, era a estátua 
equestre de Longuinhos, no santuário do Bom Jesus 
do Monte. 

No cimo das escadas porten osas, 

De soberbas capellas adornadas, 

Cercado d'altas arvores frondosas 

Que antes do mundo haver foram plantadas, 

Chegando co'as orelhas altanosas 

Ás nuvens nunca d*antes navegadas, 

Alo^ido, e não a pé como os vizinhos 

Judeus como elle, avulta o bom Longuinhos. 

Deixo transcrita uma graciosa amostra do 1 .° canto 
do poema, cujo original o próprio autor me empres- 
tou no Porto, e do qual eu transcrevi logo algumas 
oitavas no periódico portuense Mocidade, semanário 
d'instrucção e recreio. 

Faziam patte da biografia, que eu ali publicara^ 



PORTUGUESES 89 

de Marques Pinto, e que, modificada, trasladei pri- 
meiro para o livro Esboços e episódios, e depois para 
o 2.° vol. da Seara em flor. 

LUSA (A) BAMBOCHATA, poema triste em verso ^ 

alegre por Joannico C, Mila (Joào Pereira da Costa 
Lima). Lisboa, 1885. 

A ediçào, da casa Tavares Cardoso & Irmão, é 
luxuosa, e foi amplamente ilustrada por Bordalo Pi- 
nheiro (Rafael). 

O poema consta de sete cantos em variado 
metro. 

É herói-cómico, posto se denomine apenas «poema 
triste em verso alegre» : canta o estadista Fontes Pe- 
reira de Melo como centro de uma constelação plane- 
tária de políticos da época. 

Diz o autor: 

Pintar tantos heróis a tinta duradoira; 
Pintal-os em relevo e a traços de vassoira; 
Deixar aos do-futuro-em tela colorida. . . 
Da raça do-presente-a recua patiicida, 
Eis todo o meu empenho. 

É uma charge que navega a todo o pano da veia 
humorística do autor. 

Fontes, a maior figura política do seu tempo, foi 
muito alvejado pela sátira, que por vezes o tratou 
cruel meti te. 

Contudo êle serviu a pátria com dedicação e. de- 
sinteresse. . . porque morreu pobre. 



90 POEMAS HEROI-COMICOS 

lusíadas (parodia aos). 

Consagrada a importância literária e política da 
epopeia de Camões, natural parecia que surgissem 
desde logo tentativas de imitação ou paródia, pelo 
sentimento de admiração que impele os espíritos para 
o rastro luminoso das obras notáveis, e ainda pela 
ambição de lucros ou celebridade. 

Contudo, a própria grandeza monumental dos 
Lusíadas poderá explicar talvez o número relativa- 
mente deminuto de imitações ou paródias que teem 
aparecido. 

Quanto a imitações — entendendo por esta palavra 
a escolha do mesmo assunto no mesmo género com 
um propósito de rivalidade — apenas temos a mencio- 
nar o Oriente do padre José Agostinho de Macedo, 
que não preencheu os intuitos audaciosos do seu 
autor. 

Pelo que respeita a paródias, ,a mais antiga de 
que temos notícia é a que Soares Toscano e outros 
escritores atribuem a quatro estudantes da Universi- 
dade de Évora e colocam no ano de 1589. 

Esses quatro estudantes seriam Manuel do Vale, 
Manuel Luís Freire, principal colaborador, Bartolomeu 
Varela e Luís Mendes de Vasconcelos, que contribuiu 
apenas com um verso. 

Todos estes estudantes eram alunos de teologia e 
dos mais ortodoxos. 

Durante dois meses saiam da cidade pela porta 
de Machede e iam juntos esconder-se num ferrageal, 
)S(nde em segredo compunham a paródia aos Lusíadas, 



PORTUGUESES ' Ql 

que não abrangeu mais que o canto primeiro, e que 
foi muito festejada quando se tornou conhecida. 

O padre Ferrer, jesuita castelhano, chegou a dizer 
que seria esta paródia a melhor obra que nunca sairá 
nem vira, se nào fosse tào suja. 

Pelo que a Companhia nào terá que ufanar-se de 
haver sido màe espiritual do padre Ferrer. 

Diz-se que a paródia anda alterada por emendas 
da lavra de vários copistas ou leitores. 

Mas uma das cópias parece merecer maior fé, 
porque pertenceu a um dos autores, o licenceado 
Bartolomeu Varela, e depois ao chafitre da Sé de 
Évora — Manuel Severim de Faria. 

É esta cópia a que foi reproduzida em Lisboa no 
ano de 1880 num folheto de 36 páginas. 

O assunto da paródia funda-se na bebedice de 
alguns eborences entào mais notoriamente pinguleiros. 

Borrachos, borrachões assignalados, 
Que de Alcochete junto a Villa Franca, 
Por mares nunca d'antes navegados 
Passaram inda alem de Peramanca : 1 
Em pagodes 2 e ceias esforçados, 
Mais do que permitte a gente branca. 
Em Évora cidade se alojaram. 
Onde pipas e quartos despejaram. 



1 Peramanca é o nome de urp.a herdade na freguesia da 
Tourega; concelho de Évora. 

2 Esta palavra enccntra-se também com o mesmo sentido 
de patuscada gastronómica nas comédias de Jorge Feireira de 
Vasconcelos. 



92 POEMAS HEROI-COMICOS 

Os autores da paródia não se preocuparam tanto 
com a coerência do texto como com a oportunidade 
das alusões pessoais que lhes iam lembrando. 

Era uma chalaça de rapazes, principalmente. 

Esta paródia ao canto primeiro dos Lusíadas co;i- 
servou-se inédita até 1845, ano em que foi impressa 
no 1 .° número da Misceílanea histórica e litteraria, do 
Porto; e daí foi reproduzida no folheto de 1880. 

António de Magalhães e MenezeS; senhor da Ponte 
da Barca, escreveu o 2P canto da paródia, e dele 
tirou cópia o sr. António Francisco Barata, que a deu 
ao prelo em 1895, Lisboa (34 páginas). 

Menezes continuou o assunto báquico, mas sem 
valor algum. 

No século XVIII, a propósito da cantora Ana 
Zamperini, apareceu uma paródia ao episódio do ve- 
lho do Restelo ^. É atribuída a José Basílio da Gama, 
português-brasileiro. 

No século XIX, Faustino Xavier de Novais publi- 
cou no periódico O Futuro, que apareceu no Rio de 
Janeiro, uma paródia ao primeiro canto dos Lusíadas 
sob o título Dinheiro! 

Esta paródia foi encorporada nas Poesias posthu- 
mas do autor (Porto, 1877). 



F. A. de Almeida — «o Almeida das Petas»— pa- 
rodiou em 1865 (Lisboa) os cantos I, ÍI, III, IV e V 



1 Vide Zamperineida, Lisboa, 1907. 



PORTUGUESES 93 

num volume de 206 páginas, com o título Os Lusíadas 
do século XIX, poema heroi-comico. 

O assunto da paródia, como o título indica, sào 
os acontecimentos, principalmente políticos, daquele 
século em Portugal. 

Os asnos Figurões assignalados, 

Que da classe dos getas e bananas, 

Por motivos já bem justificados 

Passai am inda alem dos fofos Tanas ; 

Em certo dia muito apouquentados, 

Mais do que julgam almas sempre humanas, 

Entre Vianna e Vallada edificaram 

Novo Reino, que tanto sublimaram. 

E também as memorias gloriosas 

D'aquelles taes, que foram dilatando 

A má fé; e as alminhas generosas 

Andaram de Lisboa embarrilando: 

E esses que por obras cavillosas 

Se vão da pelintrice libertando; '>^ 

Cantando espalharei por toda a parte, 

Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 

O sr. Almeida era muito conhecido na república 
das letras, como autor de dicionários, tais como: o 
das Sete línguas, o Illustrado, etc. 

Em 1884 deu este autor ao prelo a continuação 
da paródia, que ficou abrangendo dois tomos. 



Les Lusiades travesties, parodie cn vers burlesques, 
grotesques et sérieux — Voyage maritime et pedestre du 



Q4 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

s 

grrrand porfugais Vasco de Gama par J. R. M. Scar- 
ron 11. Porto, 1883. 

É um sumário humorístico dos Lusíadas. 

Na variante de género é que está o travestissement. 

O autor tinha o apelido de Mesnier, era já velho, 
e residia no Porto, na rua de Cima de Vila. 

Creio que era pai do sr. Qastào Mesnier. 

Sua mulher achava-se ausente no Brasil. A ela de- 
dica o autor, saudosamente, êsíe trabalho literário. 

Na invocação dirige-se Mesnier a Camões, cujo 
auxílio implora: 

Et toi, Grand Camoens, exhausse mon désir, 
Prête moi ton secours, tu me feras plaisir, 
Aide moi dans ce jour, et lance dans ma veine, 
Le souffle Olympien, de ta divine haleine! 

O texto da paródia é composto em alexandrinos 
pareados, mas divididos quatro a quatro. 
Propõe o autor o assunto dizendo: 

Je chante le héros d'un tout petit pays, « 
Les trois petits bateaux, ou pressés, reunis, 
Sont cent quarante huit, serres comme sardines, 
Mais tous forís et nerveux, pourvus de bonnes mines. 
Pour tout bien, leur valeur, de vigoureux gaillards 
Volant à la fortune, aux perils, aux hazards, 
Quittérent, un beau jour, les riants bords du Tage, 
Pour affronter les mers, la tempête et Torage. 

II falait bien qu'ils soient comme un certain marin, 
Qu' Horace dit avoir le cocur doublé d'airain. 



PORTUGUESES 95 

Au moment de partir, vient un vieux rabaclieur 
Qui, je ne sais pourquoi, voudrait leur faire peur; 
II airive et se tient sur le bord du rivage, 
Puis d'une grosse voix, qui fait trembler le Tage, 

II leur dit doucement, etc. 

Por uma das poesias líricas, que vêem em seguida 
à paródia, sabe-se que o sr. Mesnier, ao cabo de 
quarenta anos de residência no Porto, foi juntar-se 
com sua mulher no Brasil. 

Despedindo-se enternecidamente daquela cidade, 
diz êl^: 

Dans tes murs glorieux, tous mes enfants sont nés, 
Dans ton champ de repôs, plusieurs sont inhumés!. 
Cest après quarante ans de tranquille existence, 
Qu'il me faut te laisser, presque sans esperance 
De te revoir, un jour. . . 

Alguns cantos do poema Lusiadcs travesties sào 
ilustrados em caricatura por S. S., certamente Sebas- 
tião Sanhudo. 



Em 1893, o sr. Eduardo Maia publicou no Porto 
A Jantareida, paródia a algumas estâncias dos Lusía- 
das, oferecida aos alunos do 4.° ano de medicina. Foi 
estampada na Imprensa Moderna, sendo a tiragem de 
100 exemplares, dos quais 28 numerados, 

O texto abrange 15 páginas e compreende 20 
oitavas. 



96 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

As duas primeiras anunciam a proposição ou ex- 
posição do assunto: 

Os rapazes alegres, divertidos, 
Que da grande estação de Campanhã 
Por caminhos já d'outros percorridos 
Sahiram certo dia de manhã; 
E em folguedos ha muito apeiecidos, 
N'uma alegria louca, viva e sã, 
Entre gente remota encommendaram 
Um jantar que depois enguliparam; 

E também as memorias gloriosas 
Desses pontos, que foram emlíorcando 
O verde, o fino; e as terras tão formosas 
Dos arredoies andaram devastando; 
E aquelles que em partidas primorosas 
Se vão homens de gosto patenteando; 
Cantando espalharei por toda a parte, , 
Se a tanto me ajudar o engenho e arte. 

Trata-se de um jantar de quartanistas de medi- 
cina, em Ermezinde, uma dessas alegríssimíis festas 
de rapazes que deixam sempre grata lembrança é são 
recordadas na velhice com funda saudade. 

Nada tem de infeliz esta pa-ródia a diversas estân- 
cias dos Lusíadas. 



Luziada contrafeita á bebedice por Barthoíomeu Va- 
rella. 

Esta composição herói-cómica, mencionada pelo 



PORTUGUESES 97 

sr. Ramos Coelho, é a paródia ao canto primeiro dos 
Lusíadas, de que já falamos neste mesmo artigo, e de 
que Bartolomeu Varela foi um dos colaboradores. 



« 



Francisco Duarte de Almeida e Araújo, homem de 
letras, que foi redactor da Câmara dos Pares (1857) 
compôs uma paródia aos Lusíadas. Deixou-a inédita e 
por morte do autor nào sabemos o descaminho que 
levaria. 



* 



Parodia, sem pretensões aos «Lusíadas», do nosso 
faílecido coílega e illustre thalassa, cidadão Luiz de Ca- 
mões.. 

Esta paródia começou a ser publicada em o 
n.° 730, VIII ano do periódico Os Ridículos (18 de 
setembro de 1912). 

Tem por assunto os acontecimentos políticos que 
resultaram da revolução de 5 de Outubro de 1910 e 
é assinada com o pseudónimo — Marco António (Antó- 
nio Correia Pinto de Almeida). 

Foi reimpressa em livro. 



Em 1916, o dr. Júlio de Vilhena revelou no vol. 
1.° da sua obra Antes da República (Notas autobiográ- 



98 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

ficas), pág. 130, que el-rei D. Luís compusera e lhe 
lera uma paródia ao canto primeiro dos Lusiadas^Xo- 
mando por herói um bacharel em direito, então muito 
conhecido. 

Vide Bolha e Visão do herói. 



M 



MACARRONEA LATINO- PORTUGUEZA. — Sob 
este título andam encorporadas num volume todas as 
composições jocosas, que por diversos autores haviam 
sido publicadas em folhetos avulsos. 

núcleo inicial destas composições foi o Palito 
métrico, por António Duarte Ferrão, impresso a pri- 
meira vez- em 1746 \ Depois se lhe foram agregando 
.outras produções do mesmo género, em prosa e verso, 
até que numa edição feita no Porto em 1791 e na de 
Lisboa em 1792 se constituiu, muito aumentada, a 
Macarronea latino-portugueza. 

A proximidade destas duas edições mostra bem 
quanto o género macarrónico merecera entre nós o 
agrado público. 

1 Inocêncio, no tomo 4.° do Dicc. Bibl., pág. 37, diz ser 
este o ano da 1.^ edição; mas no tomo 5, pág. 334, duvida se a 
ediç5o de 1765 será a primeira ou a segunda. Foi lapso. O padre 
Silva Rebelo freqiientava a Universidade no tempo do reitor 
D. Francisco da Anunciação, isto é, entre 1745 e 1757. 



PORTUGUESES 99 

E aquele género foi-se alargando a ponto de abran- 
ger alguns assuntos estranhos à vida escolástica, o que 
depõe mais uma prova do interesse que conquistara. 

Em verdade raro era o estudante que, principal- 
mente em Coimbra, nào sabia de cór trechos do Pa- 
lito métrico, ainda nas primeiras gerações académicas 
do século XIX. 

O autor do Palito adoptara o pseudónimo de Antó- 
nio Duarte Ferrão, mas o seu verdadeiro nome era 
Joào da Silva Rebelo. Foi aluno da Universidade e 
depois reitor da real casa e igreja da Nazaré, na Ex- 
tremadura, sua província natal, pois que êle tivera 
por berço um obscuro lugarejo ^ próximo da vila de 
Alcobaça. 

Retirando-se da reitoria, faleceu, octogenário, no 
ano de 1790, pouco mais ou menos. 

A graça das suas composições humorísticas, como 
das melhores que lhes foram adicionadas no volume 
da Macarronea, é espontânea e folgazã, desenfado es- 
pirituoso de rapazes alegres e trocistas. 

É a graça de outro tempo, menos pretencioso do 
que o actual, mas que servia excelentemente para co- 
lorir a pintura de costumes, que hoje talvez nos pare- 
çam ingénuos; graça que fornecia alguns cobres à 
magra algibeira dos estudantes talentosos, aliviando a 
de seus pais. 



1 O lugar de Sortão, segundo Inocêncio; mas este lugar é 
tão obscuro que nSo vem citado nas corografias portuguesas, nem 
tté no Dicionário Postal. 



100 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Naquele tempo ainda se sabia tanto latim, que até 
era possível tomá-lo em brinco, sendo aliás a língua 
mais séria deste mundo . . . especialmente quando se 
fazia exame dela. 

Hoje não me parece fácil encontrar em Portugal 
seis estudantes que pudessem transitar sobre a esteira 
macarrónica do padre Silva Rebelo. 

A seu respeito diz Camilo que não teve na Europa 
rival naquela sua engenhosíssima especialidade ^. 

Um dos colaboradores da Macarronea assinou-se 
António Castanha Neto Rua, mas foi o autor da 
Mondegueida, isto é, Francisco Manuel Gomes da 
Silveira Malhão, o qual destilou prosa de bom conse- 
lho aos calouros intitulando-a O sábio em mez e meio. 

Faço menção da Macarronea unicamente pelo facto 
de nela estarem compreendidas algumas espécies que, 
tais como Bisnaga escolástica, Calouriados e Mendica- 
nimachia, poderão caber no género herói-cómico. 

Por este motivo as destacamos para os seus res- 
pectivos lugares nesta nossa resenha alfabética. 

MAL (O) DA DELFINA, paródia d < Delfina do 
Mal*, por um homem de bem (Guilherme Braga) 
Porto, 1869). 

Guilherme Braga foi um dos três grandes poetas 
modernos do Porto, colocado cronologicamente entre 
Soares de Passos e António Nobre. 

Mas no género — paródia — ficou inferior a si mes- 

1 Cousas leves e pesadas : O académico ambicioso. 



PORTUGUESES 101 

mO; conquanto fosse um pujante satírico tal como se 
afirmou nos Falsos Apóstolos e no Bispo. 

Ele próprio reconheceu a sua inferioridade nesse 
género quando disse na carta-preambular do Mal da 
Delfina: «a paródia para mim fica sendo como Cascaes 
para o povo. Uma vez. . . e nunca mais! Quando me 
lembro de que escrevi este livro, imagino que tomei 
um suadouro». 

A técnica do poema é excelente, porque Guilherme 
Braga metrificava a primor, e isso já nào é pouco. 

Mas a inspiração do autor — como a de todos os 
grandes poetas — nào sofre peias nem itinerários obri- 
gatórios. 

Foi certamente numa aguda urgência de dinheiro 
que Guilherme Braga se lembrou de parodiar A Delfi- 
na do mal, de Tomás Ribeiro. 

MALHO ADA (A). 

Este poema, que ficou inédito, foi composto em 
verso solto e 5 cantos por Anacleto da Silva Morais, 
oficial maior do antigo tribunal da junta do comércio. 

Em 1894 o dr. Rodrigo Veloso salvou da obscuri- 
dade a Malhoada, dando-a a público em Barcelos, e 
bem haja por fazê-lo, pois que ela é um dos nossos 
melhores poemas heroi-cómicos depois do Hissope. 

Menos ampla na arquitectura e vitalizada por me- 
nor fôlego, merecia contudo as honras da impressão. 
Como sátira pessoal que é, de carácter principalmente 
literário, nào desluz hoje, antes aviva, a memória do 
protagonista: António Gomes da Silveira Malhão. 



l'02 POEMAS HEROI-COMICOS 

Ainda que a existência de Anacleto de Morais 
haja excedido o primeiro quartel do século XIX, pode 
fixar-se com segurança a época da elaboração da Ma- 
Ihoada; foi anterior a 17S6, ano em que faleceu An- 
tónio Malhão. 

Este rapaz era filho do bacharel Agostinho Gomes 
da Silveira, natural de Óbidos, e de uma senhora, da 
família Malhão, oriunda do Lumiar, termo de Lisboa. 

Teve irmãs e irmãos: creio que, ao todo foram 
oito. Mas só António e Francisco adoptaram o apelido 
Malhão; os outros assinavam-se apenas Silveira. 

Francisco nascera um ano antes de António. 

Ambos estes irmãos cultivavam as iVlusas, e tiveram 
fama como repentistas, especialmente António, o qual 
morreu aos 28 anos. 

Algumas das suas poesias líricas sairam póstumas 
com outras de Francisco Malhão num pequeno volu- 
me impresso em Coimbra no ano de 1787. 

Mas a principal torrente da inspiração daquele 
malogrado moço malbaratou-se em improvisos, que 
tiveram uma hora de celebridade em Lisboa e Coim- 
bra, e de que apenas restam hoje escassos fragmentos. 

Um deles conhecemos nós: é uma das glosas com 
que respondeu em Coimbra ao mote O teu rosto en- 
cantador: 

Quiz um dia a natureza 

Fazer uma cousa rara, 

E consta que meditara 

Mais de uma vez nesta em.presa : 

Da branca neve á beleza 



PORTUGUESES 103 

Juntou do carmim, a côr; 
Poz-lhe fogo abrazador; 
Tudo o que é belo lhe uniu, 
E desta massa sahiu 
O teu rosto encantador. 

Esta amostra dá-nos a medida do seu mérito como 
apreciável improvisador que era. 

Nas Obras poéticas de Francisco Dias Gomes, pu- 
blicadas por Qarçào Stóckler, encontra-se a pag. 38 a 
seguinte nota: 

«António Gomes da Silveira Malhào, de quem o 
Author aqui falia, e que faleceu na flor da mocidade, 
foi dotado de hum muiio grande talento poético, e 
possui o dom de improvizar em gráo muito destincto. 
Aos dotes do espirito unia os do coração. E se a 
morte o nào tivesse roubado tào cedo ás letras, teria 
sem duvida sido hum dos Poetas, de que a Naçào 
Portuguesa poderia gloriar-se, etc.» 

É um juízo desapaixonado e insuspeito. 

Na edição da Malhoada feita em Barcelos sobre 
uma cópia existente em Évora, falta o Argumento, que 
precede o poema noutra cópia que eu possuo, escrita 
em letra do século 18.°. 

Por este motivo, e porque deixa entrever as origens 
da Malhoada, transcrevo textualmente o 

Argumento 

«António Gomes Malhào achando-se no Cirio da 
Nazareth a tempo em que no mesmo sitio se achava 



104 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

huma grande parte da Nobreza desta Corte, apareceu 
entre ela compondo ao som de huma Viola varias tro- 
vas, em que se notava mais a precipitada promptidão 
com que eram feitas, do que a beleza que deviam ter. 

«Certo Cavalheiro desta Corte, que escutava os 
seus improvisos, reconhecendo-lhe alguns talentos, e 
persuadindo-se que cultivados estes com hum serio 
estudo o poderião fazer feliz, mediante a sua Protec- 
ção, o trouxe na sua companhia para Lisboa. EUe 
abuzando deste favor, e afastando-se deste projecto, 
cerrou os Livros, e se negou a os Estudos, e enfu- 
nado dos Louvores de cabeças ocas, se julgou per- 
feito e consumado Poeta, insultando até aquelles que 
no principio lhe emendarão os Versos, e prudente- 
mente o aconselhavão. Este entusiasmo lhe quiz abafar 
o Autor desta Obra com huma Critica que intitulou 
= O Malhão = e estes sucessos constituem a acção do 
presente Poema. 

«Espalhada por Lisboa a Critica, se levantarão a 
mal dizella os Apaixonados do nosso Heroe, fazendo- 
Ihe alguns Cortes, a que se respondeo no Quinto 
Canto, que forma o Episodio de Marta Vaz. 

«O breve espaço em que foi traçada esta Obra, 
pode servir de desculpa a alguns descuidos, que o 
Autor nella tivesse, e que não deixará de emendar 
para o futuro, e quando os nimiamente escrupulosos se 
não satisfação, ponhão em publico as suas objecções 
que sendo justas, serão gratamente abraçadas, e sendo 
tão fúteis como as 'primeiras, se tratarão com o des- 
prezo que estas merecem». 



PORTUGUESES 105 

Para verificarmos os motivos que presidiram à 
elaboração da Malhoada não temos hoje melhor con- 
traprova do que as breves notícias que da biografia 
de António Malhào encontramos na obra de seu irmào 
Francisco. 

Referimo-nos à Vida, e feitos de Francisco Manoel 
Gomes da Silveira Malhão, escrita por elle mesmo. 

Nào foi uma pessoa da corte que trouxe António 
Malhão para Lisboa depois de o ter ouvido improvisar 
nas festas da Nazaré. 

Ele saíra da casa paterna, em Óbidos, para ir 
cursar humanidades nas aulas do convento de Mafra. 

Diz Francisco Malhão: 

«Meu Irmão, que igualmenite se achava em Mafra, 
tinha hum geito decidido para a Poesia, e era acom- 
panhado de huma facilidade summa em fazer os ver- 
sos unindo a isto hum enthusiasmo extraordinário, 
que só quem o ouvio, e vio pode fazer delle hum 
ajustado conceito. Elle era de um temperamento colé- 
rico, sem ser em demasia, etc. ^». 

De Mafra fugiu para Lisboa, nào sob o patronato 
de algum fidalgo, mas para esquivar-se à vontade do 
pai, que de mótu próprio resolvera fazê-lo seguir a 
vida monástica ^. 

Ao passo que Francisco Malhào estava em Coim- 
bra, no intuito de formar-se, vivendo da publicação 
de alguns opúsculos e principalmente do favor de 

1 Tomo I, pág. 81-82. 

2 Mesmo tomo, pag. 109. 



106 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

estudantes, António sustentava-se em Lisboa do prestí- 
gio que lhe adviera do seu talento de poeta e de im- 
provisador, graças à liberalidade de amigos e admi- 
radores. 

Assim viveram outros poetas no século XVIII: a 
mendicidade literária era costume do tempo, e nào 
parecia abjecta como hoje se nos afigura. 

Principalmente a nobreza prezava-se de proteger 
poetas: todos os fiaalgos queriam imitar Mecenas e 
os Médicis, 

Da casa paterna exíguos recursos podiam receber 
Francisco e António iVlalhào. O pai tinha meios, mas 
nào se alargava com os dois filhos que aventurosa- 
mente haviam saído de casa. 

A Francisco dissera muitas vezes: «Vai para onde 
quizeres, mas nào me peças dinheiro nem cavalga- 
dura» . 

Com António ainda seria menos indulgente, por- 
que este filho lhe fugira para evitar ser frade. 

Mais tarde, a casa do pai dos Malhòes sofreu um 
grande desfalque, e a vida de família, em Óbidos, 
tornou se muito apertada. 

Natural era que António Malhào, em Lisboa, 
adquirisse ruidosa fama, nào só pela sua facilidade 
de improvisação, mas também pela espécie de fúria 
poética em que entrava quando compunha os impro- 
visos. 

A Malhoada descreve a vida de Malhào na capital, 
vida de poeta boémio e estúrdio, mal vestido e des- 
grenhado. 



PORTUGUESES 107 

Anacleto de Morais, na sua qualidade de grave 
burocrata, nào se bandeava nesta classe, e o seu ta- 
lento literário era por isso menos celebrado. 

Contudo parece que alguma vez tivera ocasião de 
aproximar-se do repentista obidense; e até se depreende 
do Argumento que lhe dera conselhos no sentido de 
aprimorar o estro e aplicar-se ao estudo. 

• Provavelmente, António Malhào, na sua liberdade 
de boémio e com o seu génio fogoso, responderia 
torto, com sobranceria ou independência. 

O que é certo é que Anacleto de Morais planeou 
a Malhoada para demolir o improvisador ovante. 

Não o conseguiu, porque as sátiras nunca fizeram 
mal a ninguém; pelo contrário, chamam a atenção e 
a simpatia do público para as suas vítimas. 

Malhão teve defensores fervorosos, que Morais 
classifica de suspeitos por apaixonados. 

Não sei como o poeta se desagravaria em confor- 
midade com o seu génio colérico ao ter conhecimento 
do poema por alguma cópia ou, quando menos, por 
atoarda. A resposta seria corporal ou literária? Eis o 
que até agora se não pôde averiguar ainda. 

A Malhoada, sobre nào prejudicar a popularidade 
do protagonista, tem hoje o valor de fixar o seu tipo 
'de poeta improvisador, que sem ela ficaria apagado. 

Morais fornece-nos em caricatura o retrato de An- 
tónio Malhào: 



. . .rapaz de pouca barba, 

Que pretende fazer soar seu nome 



108 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Nas espaçosas ruas de Lisboa. 
Pende-lhe da cabeça ao vento ondeando 
Hirsuta grenha nunca penteada, 
Retostadas bochechas, nariz rombo, 
Média estatura, gesto empavezado, 
Annosas vestes os seus membros cobrem, 
E tem nas longas pernas encaixadas 
Botas alarves de rugosa pelle. 

Está-se vendo o poeta errabundo e pobre, classe 
de que Bocage fora mais tarde a figura primacial.. 

Nào louvamos a Anacleto de Morais os sentimen- 
tos de emulação e despeito, que transparecem da Ma- 
Ihoada. 

É porém, certo que Morais tinha evidente mérito 
literário, posto talvez lhe faltasse a faculdade de re- 
pentista, principal fonte da celebridade de António 
Malhào. 

Alguns episódios do poema, descontada a azeda 
fantasia em que assentam, sào reconhecidamente inte- 
ressantes, e a disciplina académica da composição re- 
vela já a influência da Arcádia, especialmente de An- 
tónio Denis, como Anacleto de Morais confessa quando 
exclama invocando a Musa: 

Se já nas margens do aprazivel Sena 
Ao famoso Boileau tanto illustraste, 
E se por teu influxo encheu de assombro 
A lusitana gente o grande Elpino, 
Benigna inflamma o temeroso vate, 
Que a voz levanta ao ar desconhecido. 

Era esta falta de disciplina literária que o irritava 



PORTUGUESES 109 

em MalhãO; aliás mais. estimado e popular do que o 
seu emulo. 

Alguns estudantes naturais de Coimbra pescaram nas 
margens do Tejo, António Malhào, como diz seu irmão 
Francisco, e levaram-no com eles para aquela cidade. 

Aí reunidos, os dois irmãos fizeram as delícias 
da academia nos outeiros de Lorvão, nas funçanatas 
de Sendelgas, nos passeios às Torres, nas comemora- 
ções universitárias e nos serões coimbrãos da rapaziada. 

Falando da república dos pescadores de António 
Malhão, que era no beco de S. Marcos, diz seu irmão 
Francisco que aquela casa «foi por quasi um anno, 
hum Parnaso urbano, povoado de musas machas, e 
de Apollos de batina». 

Depois, reconhecendo a superioridade do irmão, 
acrescenta: «estro assim, promptidào similhante, oc- 
curencia de ideas poéticas tão fácil, e verbosidade 
tão prompta, se algum outro a tem, eu não o conheço; 
e deste mesmo voto achei a quantos huma vez o ou- 
virão: e ralhem muito embora os que forão seus emu- 
las, que aquelle cabedal que dizião faltar-lhe, podia, e 
estava a ponto de adquirir, etc. ^». 

É clara a alusão à Malhoada. 

Os dois irmãos inventaram em Coimbra uma es- 
pécie de «canto amabeo ^» sobre qualquer mote, al- 

1 Vida e feitos, tomo II, pág. 118. 

2 O canto amabeu era originário da Grécia heróica, uma 
canção dançada, em que raparigas e rapazes formavam círculo à 
roda de um par, e representavam sucessivamente a expressão do 
amor, do ciúme e da galantaria nupcial. 



110 POEMAS HEROI-COMICOS 

ternando-se na glosa, coisa de que a academia muito 
gostava. 

António Malhão, nesses momentos, «ateava-se de 
maneira, que nem via, nem ouvia, e por fim de con- 
tas, e de hum improviso cantado, e outro de Decimas, 
que mal mediava, do que acabava ao que começava 
de novo, hum ápice; sahia da funçào com febre: se 
cuidào que isto he exaggeraçào, visto que nelle já se 
não pode fazer experiência, pergunte-se a milhares 
de pessoas que o virão, e que o obrigavào a pôr 
termo a seus improvisos, doídos do estrago de sua 
saúde ^». 

Efectivamente António Malhão principiava a ser 
apalpado pela doença, que suponho ter sido a tuber- 
culose. 

Mas ainda assim nào evitava as ocasiões de 
improvisar, e continuava fazendo-o com grande exal- 
tação. 

Mas a doença cresceu, e o pobre moço teve de 
recolher-se a Óbidos, já crente no próximo termo de 
sua existência ^. 

Faleceu em dezembro de 1786. 

O irmão, ao regressar de Coimbra, teve conheci- 
mento desse triste sucesso. 

«Suave e única consolação me forào as notícias da 
sua resignação, e conformidade, com que se desape- 
gou de hum mundo, aonde achou estimação, e rega- 



1 Mesmo tomo, pag. 20. 
1 Tomo III, pág. 57-58. 



PORTUGUESES 1 1 1 

los; podendo dizer-se delle, que viveo como quiz, e 
morreo como devia, a pesar de trabalhos nascidos da 
emulação ^». 

António Malhào, se bem que muito inferior a Bo- 
cage, pode comparar-se com êle na vida boémia, na 
facilidade de improvisação, e na morte crista que am- 
bos tiveram. 

irmào compôs dois sonetos pranteando o 
passamento de António. Destaco um terceto em 
que diz: 

Quiz-ie mal, quem atraz de ti voava, 
Amou-te quem teus dons pezar sabia ; 
E tua Musa as bocas vis calava. 

A 

Este último verso faz supor que Anacleto de 
Morais não ficaria sem resposta. Mas onde estará 
ela? 

V.. 

António Lobo de Carvalho, o Lobo da Madra^ôa. 
também foi emulo de António Malhào, a quem chamou 
poeta coxo num dos seu sonetos. 

Francisco Malhào, depois da morte de António, 
concluiu a formatura em direito, casou em Óbidos, 
abriu aí banca de advogado, mas nunca deixou de 
cultivar a poesia e a improvisação, nem perdeu nunca, 
como os outros poetas da mesma época, o feitio de 
cantar pessoas que pudessem recompensá-lo. 

A seu respeito vide Mondegueida. 

1 Mesmo tomo, pág. 72. 



112 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

MAQUINA (A) aerostatjca, poema épico por João 
Robert da Fond dedicado a si mesmo. Lisboa: Na Offic. 
de Lino da Silva Godinho. Anno de M.DCC.LXXXVÍL 
Com licença da Real Meza da Commissão Geral sobre 
o Exame, e Censura dos Livros. 52 pags. 

Inocêncio diz que este poema (de que apenas saiu 
o canto I) é raro, e supõe que o será por ter sido 
mandado recolher depois de haver sido autorizado 
pela Censura. Do autor, cujo apelido inculca origem es- 
trangeira, menciona Inocêncio duas outras publicações. 

Mas nada mais se sabe de sua vida e pessoa a 
não ser o que pode depreender-se das II e III oitavas 
do poema: que era baixo e de compleição íYaca, e 
que gostava de vinho. 

O assunto do poema, que parece envolver, em 
muitas alusões pessoais hoje indecifráveis, qualquer 
aventura aerostática, é assim proposto pelo autor: 

Canto o valor, a força, o atrevimento 
Desses Heroes, que atravessando os ares, 
Prendendo o fumo, e sujeitando o vento 
Vezitárão da Lua ilhas, e mares. 
Façanhas taes, tão celebre portento, 
Não poderão fazer os doze pares; 
Nunca se acharão, digo, em igual dança 
Bertoldo, Dom Quixote e Sancho Pança. 

O autor remata o canto 1.° dizendo: 

A Deos, boa noite. Eu me recolho em tanto 
Para cismar no meu segundo Canto. 

Mas do 2.° canto nào há notícia alguma. 



PORTUGUESES 113 

MARIOLADA (A): poema heroi-comico, dedicado d 
musa do reverendo José Agostinho de Macedo, a formosa 
estanqueíra do Chiado; pelo seu auctor, o Gigante Vo- 
raz. Composto em 1813. 

É de José Anselmo Correia Henriques. 

Inocêncio viu uma cópia, que Ferreira da Costa 
possuia: diz que o poema consta de 3 cantos, prece- 
didos de uma introdução em verso. 

O ódio entre Correia Henriques e o Padre José 
Agostinho de Macedo vinha de longe: dos primeiros 
anos do século XIX, como se verifica pela data , 
de 1813. 

A Mariolada conjugar-se-ia com a Correiada, pro- 
jectado poema de José Agostinho. (Vide Correiada). 

MEDICA PALESTRA por Fredoal Lisboa, 1895.— 
Talvez lhe possamos chamar um poema herói-cómico, 
cujo assunto são as mistificações e charlatanices da 
classe médica. 

O seu autor, o sr. dr. Alfredo (de que Fredoal é 
anagrama exacto) Luís Lopes provou assim mais uma 
vez que nào fazem dano as musas aos doutores, pois 
que êle próprio é medico. 

O título da composição explica-o o autor dizendo 
que nos seus versos 

... .só existe o simples goso 

Da palestra entre amigos, em recreio. 

MEETING (UM) NA PARVÓNIA, poema num 
canto. Lisboa, 1881. 

8 



114 POEMAS HEROI-COMICOS 

MENDICANIMACHIA ou batalha entre huns Pobres 
pedintes, e Cães, sobre a pertença da carne de hum boi 
morto. Braz Dias Côdea, que a presenceou, a escreveo em 
obsequio de seu Amigo e Compadre Pascoal o Cego. 
Nem lugar de impressão nem data. 

É um poema escrito em verso pareado e sem a 
divisão do texto em cantos. 

Tanto os mendigos como os cães se dispõem a 
comer uma rês morta, que é abandonada pelo dono em 
razão de não poder aproveitá-la para o consumo pú- 
blico. 

Trava-se combate entre uns e outros, e são os 
mendigos que levam a melhor. 

No dia seguinte, um galgo vai fazer queixa do 
resultado da contenda ao fidalgo seu dono, e, para o 
comover, confronta as condições de vida da raça ca- 
nina com as da classe dos mendigos, acabando por 
pedir-lhe que nunca mais mande dar de comer a estes. 

O fidalgo responde que o dever de um cristão é 
matar a fome a quem quer que seja, cão ou homem; 
e, para compensar os cães, manda que só a eles per- 
tença a primeira rês que morrer. 

Reconhecidos ao galgo, a cujo discurso atribuem 
tão farta comesaina, os outros cães lisonjam-no 
servilmente, e nisto é que está a moralidade do 
conto : 

Depois que sem rivaes se saciarão, 
Davão mil carreirinhas, e no cabo 
Lhe vinhâo a cheirar todos o labo; 
E gratos á mercê, que tinha feito, 



PORTUGUESES 115 

Lhe conservarão sempre tal respeito, 
Que em quanto o seu focinho não mettia 
No alguidar do comer, nenhum comia. 

A 

Este exemplo de gratidão duradoira admite-se. . . 
por ser canina. 

A Mendicanimachia, como outros folhetos de lite- 
ratura popular, passou para a Macarronea latino-portu- 
gueza. Na edição de 1791 ocupa lugar no Contrapezo 
da mesma Macarronea desde a pág. 257 até à pág. 277. 

MINISTRADA (A) dada á luz por um amador da 
tranquillidade Lacobricense. 

Apenas sei que este poema existe, pois não tenho 
outra notícia dele se não a que diz respeito ao título. 

Parece, a julgar pelos dizeres do frontispício, que 
o autor foi natural ou pelo menos habitante de Lagos. 

MODERNOS (OS) lusos, poema em 1 canto por 
César Augusto Falcão. Lisboa, 1867. 

É uma sátira ao campo de manobras estabelecido 
na charneca de Tancos por Fontes Pereira de Melo, 
quando ministro da guerra em 1866. 

MOMO. ^ 

O prestante bibliógrafo Inocêncio revelou, no Ar- 
chivo Pittorcsco (IV pág. 152), que o poeta da Nova 
Arcádia — Francisco Joaquim Bingre — geralmente 
designado cisne do Vomga, tinha deixado um poema 
herói-cómico sob o título de Momo. 

Não diz claramente que este poema ficasse inédito, 



116 POEMAS HEROI-COMICOS 

mas é provável que sim. As composições de Bingre 
não publicadas preencheriam o melhor de quatro vo- 
lumes. Está neste número um poema de outro género 
(apologético) intitulado As Mulheres, de que possuí 
cópia integral; e do qual o sr. dr. Melo Freitas diz 
no seu livro Violetas (1878) que Bingre o nào pôde 
aperfeiçoar. 

Nunca vi cópia nenhuma do Momo nem sequer 
algum excerto, e por isso nào posso senào repetir a 
vaga indicação bibliográfica fornecida por Inocêncio. 

MONDEGUEIDA: poema estrambótico. 1788. Por 
António Castanha Neto Rua. 

É pseudónimo. O autor foi o então estudante de 
direito — Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, 
natural de Óbidos, e irmão do malogrado António 
Gomes da Silveira Malhão. (Vide Malhoada). 

Não obstante aquele pseudónimo, o próprio autor 
se desmascarou quando no 3.° tomo da sua Vida e 
feitos (1793) incluiu a Mondegueida. 

Este poema, que se compõe de 4 cantos em quin- 
tilhas, celebra uma grande cheia do Mondego, em 
consequência da qual pôde o mesmo rio «deixar a 
nado a Cidade baixa; montar por cima da ponte, e 
arruiná-la; desmanchar os morros da Portela; arrancar 
estacadas, e finalmente pôr toda a gente huns em 
aperto, outros em pasmo, e admiração ^». 

1 Vida, e feitos de Fraficisc? Manoel Gomei da Silveira Malhão, 
scrita por ele mesmo, tom. III, pig. 138. 



PORTUGUESES 117 

Francisco Malhão foi um dos mais estimados estu- 
dantes de Coimbra no século XVIII, e o talento poé- 
tico serviu-lhe por vezes para acudir a dificuldades 
financeiras, de par com o favor de amigos. 

Tal lhe sucedeu com a Mondegueida. 

«Este Poemasinho — diz êle — teve acceitação, e 
rendeo seus tostões, que vierào a pedir de boca, em 
razào de vestuário, e de ir comprando alguns livros, 
de que tinha precisão, pois nenhum Official pôde tra- 
balhar sem ferramenta: daqui veio fazer trocas com 
Livreiros, de quem me persuado, que ainda não ha- 
veria, quem delles reportasse cómmodo: e com effeito 
foi o meu celleirinho, que fui mandando para casa, 
e com que me achei depois». 

A Mondegueida tem, realmente, graça, e a metrifi- 
cação das quintilhas é fluente. 

autor não pensou nunca em educar a sua vo- 
cação poética, mas dispunha de veia espontânea. Cul- 
tivou muito o improviso e, com a viola na mão, a 
cançoneta e a modinha. 

Onde êle estava não h^via tristeza; contudo diz- 
-nos que às vezes era assaltado de «camarço» ou me- 
lancolia, a que foram sujeitos todos os seus parentes 
pela linha materna \ 

Este paradoxo frequentemente se observa nos acto- 
res e poetas cómicos. 

Como improvisador, teve ensejo de concorrer com 
Bocage. 

1 Vida, e feitos, tom. I,pág. 113. 



118 POEMAS HEROI-COMICOS 

Conta-se que encontrando-se ambos nas Caldas da 
Rainha, alguém lhes dera este mote: 

Um burro, um frade e uma freira. 

Malhão respondeu ao mote com a seguinte qua- 
dra: 

Sahiu um garoto á pressa 

A buscar uma parteira, 

Porque viu estarem juntos 

Um burro, um frade e uma freira. 

E Bocage glosou-o assim: 

Casou um bonzo na China 
Co'uma mulher feiticeira: 
Nasceram três filhos gémeos, 
Um burro, um frade e uma freira. 

Uma noite, em casa de Pimentel Maldonado, certa 
dama, na presença de Bocage, deu mote ao Malhão, 
que se demorou um minuto em responder. 

Bocage, insofrido, quis interjjpr-se com- uma glosa, 
mas a dama pediu-lhe que esperasse por o Malhão. 

Ardendo subitamente em despeito, Bocage apos- 
trofou: 

— O Malhão, faze lá meia dúzia de chançonetm, 
que é pasto de tolos. 

A dama soube conter-se, e, depois de Malhão ter 
recitado, voltou-se para Bocage a dizer-lhe graciosa- 
mente: 



PORTUGUESES 1 IQ 

— Ora vamos, sr. Bocage; há pouco pintou-me 
tola; agora peço-lhe que faça o meu retrato. 

Elmano, logo subjugado e macio/ improvisou o 
belo soneto que principia: 

Pode o tosco pincel, que mal sustento, etc. 

Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão foi 
pai do famoso orador sagrado Francisco Rafael da 
Silveira Malhão, honra do púlpito português. 

MONOCLEA (A), poema de Frei Simão António de 
Santa Catharina — /.^ impressão. Barcelos, 1894. 

Este poema conservava-se inédito, e foi uma cópia 
existente na Biblioteca de Évora a que o benemérito 
bibliógrafo dr. Rodrigo Veloso aproveitou para a pri- 
meira impressão ou edição. 

Moveu-o decerto a fazê-Io a notícia recomendató- 
ria que por Cunha Rivara foi publicada em 1840 no 
Panorama (vol. ÍV). 

E certo, porém, que o único merecimento do poe- 
ma está na originalidade do assunto; quanto a valor 
literário é um fiel espelho da sua época — princípio do 
século XVIII — ainda eivada de influência gongorista 
e dominada pela grafomania, insulsa e prolixa, de fra- 
des jocosos ou galanteadores. 

Frei Simão de Santa Catarina ou Simão Antunes 
Freire de Santa Quitéria — como diz a cópia de Évora 
— nasceu em Lisboa no ano de 1676, ou talvez antes, 
chamou-se no século Simão Lopes, professou no Ins- 



120 POEMAS HEROI-COMICOS 

tituto de S. Jerónimo em 1696, foi lente de teologia 
moral no convento de Belém, sócio de várias acade- 
mias, e faleceu a 16 de maio de 1733. 

Era cego de um olho e por isso se lembrou pro- 
vavelmente de celebrar num poema nào só os cocles 
ou zarolhos notáveis, mas até êle próprio; daqui o as- 
sunto e tíulo do poema — A Monoclea. 

A partir do céu, que tem um só olho — o sol — 
frei Simào vai passando em revista na terra alguns 
monóculos da História e da Fábula, nem sempre dos 
mais conhecidos, e a si mesmo se mete ria galeria 
acima de Camões, embora mostre querer fazê-lo por 
jocosidade. 

Nas estâncias 25, 26, 27, 142; 143, 144 e 145 
(o poema tem ao todo 151.^) Frei Simão preconiza-se 
galhofando e numa delas solta esta empavesada após- 
trofe : 

Tu que no metro foste mais avante 
que o famoso Camões, como elle disse, 
illustrado d'aquelle Apollo ovante, 
que ás vezes faz dizer muita parvoíce; 
o soneto em que o diz está bastante, 
e porque pode ser que se não visse, 
no fim da Monoclea vae copiado, 
bem que já vezes mil anda estampado. 

Alude a um soneto em que finge ser louvado por 
Camões e cujo remate soa deste modo : 

Mas tu, do olho do mundo na alta esphera, 
direito ficarás qual eras de antes, 
e eu torto ficarei qual dantes era. 



PORTUGUESES 121 

Não se pode ser mais imodesto no gracejo. 

O poema é seguido de notas, umas do próprio 
autor, outras do erudito editor: é de um feixe de com- 
posições métricas em elogio dos monóculos. 

Costa e Silva, no Ensaio biographico-critico (to- 
mo IX, pág. 292) dá notícia de outro poema joco-sério 
composto por Frei Simão e cujo assunto eram as elei- 
ções de prelados e preladas dentro dos conventos. 

Foi pena que se perdesse este poema — até hoje 
ainda não aparecido — porque êle, embora provavel- 
mente idêntico em valor literário à Monoclea — conta- 
ria episódios interessantes dessas renhidas lutas eleito- 
rais de frades e freiras. 

MONTEIROPEDES, fragmento heroj-comico por 
Félix Ramos. Porto, 1887. 

Canta, em 30 páginas, os longos pés de um pro- 
fessor portuense de ensino livre, que foi meu condis- 
cípulo no liceu' nacional daquela cidade, e que ainda 
há poucos anos tive o prazer de encontrar ali no 
gozo de uma robustez salubérrima, firmado em mais 
sólidas bases do que os pés de barro de Nabucodo- 
nosor. Ainda bem que a sátira o nào amofinou cor- 
rosivamente. Nem o caso era para tanto, porque não 
passou de uma galhofa hiperbólica, em que o autor 
revelou maiores faculdades poéticas do que sarcásticas. 

Hoje, vinte e dois anos depois, o crítico e o criti- 
cado poderiam apertar-se a mão sem rancor. 

Nesta composição herói-cómica (mais propriamente 
sátira) escrita em versos pareados, alexandrinos e de- 



122 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

cassílabos, há algumas referências picantes a pessoas 
e costumes portuenses daquela época. 

M UR RAÇA (A) poema épico em 3 cantos. Porto, 
Typ. do Ecco Popular, Rua do Bomjardim n.° 650 
— 1848. 

O autor foi Camilo Castelo Branco, e o assunto 
do poema, em oitava-rima, o conflito ocorrido no 
claustro da sé do Porto entre o cónego Joào Bernardo 
€ o arcediago Francisco de Passos de Almeida Pi- 
mentel. 

Deu causa a este conflito ter o cónego acusado o 
arcediago de acumular o subsídio de deputado da 
nação com os benesses da sé. 

Indo ao Porto no primeiro ano da legislatura, o 
arcediago encontrou o cónego na passagem do coro 
para a casa das murças e sovou-o a murros. 

A primeira edição do poema é muito rara; mas 
em 1889 fez-se no Porto uma reimpressão imi- 
tativa. 

Consta a Murraça de 32 estâncias em 15 pá- 
ginas. 

A metrificação é menos imperfeita que a dos Pun- 
donores desaggravados e Juizo final, mas ainda bastante 
desleixada. Contudo a graça deste poema é já superior 
à dos outros dois que o precederam três anos. De uma 
e outra asserção faz prova a primeira estância: 



Os cónegos e os socos bem puchados 
Que da Sé episcopal na sacristia, 



PORTUGUESES 123 

Em queixos nunca d'antes soqueados 
Ferveram com rev* renda valentia: 
E aquelles que deverem ser cantados 
Quaes filhos de sagaz patifaria, 
Cantando, espalharei por todo o Porto. 
Qual se espalha o fedor do cão já morto. 

Fez-se 3.^ edição: Figueira da Foz, na Imprensa 
Lusitana, 1916. Ilustrada* com uma carta inédita do 
autor e palavras do editor. 

A carta, datada de 1875 e dirigida ao escritor An- 
tónio Francisco Barata, o grande romancista confes- 
sa-se pai do poemeto, que jovialmente classifica de 
ingénua frioleira. ^ 

O editor desta 3.^ edição foi o sr. Cardoso Mata, 
conhecido publicista. 

Vide Pundonores desaggravados e Juizo final. 

MUSICOGRAFIA (A) por Alfredo Carvalhaes; Por- 
to, 1880. 

É uma composição herói-cómica em paródia à Ju- 
dia de Tomás Ribeiro. 

O autor era natural do Porto e ali morreu prema- 
turamente. 

Uma cantora nascida em Lordêlo (do Ouro) tran- 
sige com um boémio que desfazia nos seus méritos 
artísticos : 

Eu fecho a boca ás cantigas, 
Tu soff reia a troça obscena , . . 
O negocio vale a pena. . . 
Está fechada a sessão. 



124 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

A acção passa-se no Porto; 

Viu ! Cruzei a extensa rede 
Das calçadas da Parvónia ! 
Ai, desgraçada Laponia ! 
Ai pátria de Manoel Zé ! 1 
D 'aqui o Douro ; no cimo 
Do Pilar a serra, em frente 
O seminário potente. . . 
E ao fundo, o largo da Sé ! 

Com o título A almofada da rainha publicou o 
sr. José de Freitas Costa (Porto, 1881) uma paródia 
à poesia de Tomás Ribeiro — O tear da rainha, mas 
esta paródia não se filia propriamente no género 
herói-cómico. 



N 



NA CIDADE DA VIRGEM, poema heroe-comico 
em três cantos, por António de Vasconcellos — Canto 
primeiro. Porto, 1884. 

Apenas conheço este primeiro canto, que constitui 
um opúsculo de 15 páginas, com dedicatória em 
prosa (a Camilo Castelo Branco) e um prólogo em 

1 Célebre pelos carroções que fornecia aos portuenses. 



PORTUGUESES 125 

decassílabos soltos, que é a metrificação seguida pelo 
autor. 

Não sei se chegaram a publicar-se os outros dois 
prometidos cantos. 

O primeiro mais parece uma sátira a costumes e 
usos portuenses, especialmente à procissão de Corpus 
Cristi, que largamente descreve, do que o início de 
qualquer acçào integral que vá desenroiar-se num 
poema herói-cómico. 

Este nosso reparo conforma-se tanto com o título 
e texto do poema como também com a exposição do 
assunto feita no prólogo: 

Eu canto o Porto e mais particularmente 
Canto a rua Chã, rua do Bairro 
Primeiro da cidade: a Sé chamado, etc. 

Os versos, como se vê, não sào perfeitos nem 
bons; antes abundam os incorrectos e desleixados. 

Pena é que seja assim, porque o autor quási sem- 
pre observa e descreve com verdade e justeza. Dêmos 
um exemplo: 

ó Porto, ó terra de mulheres formosas, 
Martyres de sacrifício ! — O amor n'ellas 
É um rei tão despótico e absoluto, 
Que, qual Miguel, aquelle amor envia 
Á forca a honra d'ellas, seu bem-estar. 
Sua felicidade; as portuenses 
Corajosas ás vezes mais que os homens 
Têm um defeito só: o ser ciumentas. 



126 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Quebram vidros, desmaiam, têm ataques 
De raiva dominada, presentindo 
Uma rival . . . 

Já antes aêste poema herói-cómicO; como se vê de 
um anúncio na capa do mesmo poema^ tinha o autor 
publicado uma colecção de Sonetos, que inteiramente 
desconhecemos. 

NARIGUEIDA. Nào conheço este poema senão de 
nomC; pois o vejo mencionado por António Maria do 
Couto no — Preliminar — da sua tradução portuguesa 
da Batrachomyomachia (Lisboa^ 1835). 

NIVELEIDA (A). 

Este pequeno poema vem transcrito no livro de 
Trindade Coelho — In illo tempore. ■ 

É uma troça a determinado grupo de estudantes 
quC; por hostilidade a outro, proclamava a necessidade 
de «elevar-se o nível da academia coimbrã» para sua 
maior dignificação. 

Foi composto em oitava-rima, na aula do dr. Pita, 
pelo académico António Cabral, que na monarquia 
foi ministro das obras públicas, e depois da marinha, 
sendo também autor de dois valiosos estudos sobre 
Camilo e Eça. 

Trindade Coelho anotou naquele livro este chis- 
toso improviso. 

Em resposta à Niveleida saiu A Bolha, que também 
chegou ao nosso conhecimento por intermédio do 
In illo tempore. 



PORTUGUESES 127 



PADEIRA (A) de Aljubarrota, poema eroico-comico 
em cinco cantos, imitação da <Puceíle» de Voltaire por 
J. A. C. H. (José Anselmo Correia Henriques). Ham- 
burgo, 1806. Em 4.°, 62 páginas, verso solto. 

Sào indicações colhidas no Dic. de Inocêncio e no 
Caf. Fernandes Tomás. 

Eu não encontrei exemplar algum deste poema 
nem nas bibliotecas públicas de Lisboa, nem no mer- 
cado. 

Com razão observa Pinheiro Chagas (Dic. Pop.) » 
que o autor «era um voltairiano, mas não um liberal». 

E não é esta a única antinomia a notar na vida 
de Correia Henriques. Também é saliente a de êle 
folgar com a restauração absolutista de 1823 e ser 
inimigo pessoal, do Padre José Agostinho de Macedo. 
(Vide Correiada e Mar colada). 

Suspeito que J. A. Correia Henriques, imitando 
Voltaire, meterá a ridículo a popular tradição portu- 
guesa de Brites de Almeida. Pois se assim é, imitou 
Voltaire no que êle produziu de mais repugnante 
como francês e como homem de letras: La Pucelle, 
O ódio ao clericalismo levou o escritor francês a 
conspurcar uma das mais belas tradições da França; 
e foi impelido por idêntico móbil que êle traduziu um 



128 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

trecho do 1.^ canto do Hudibras de Samuel Butler. 
Nào tolera a consciência humana que se escrevesse 
um poema obsceno a respeito de Jeanne d'Arc. Tem 
carradas de razão Bruno quando diz: «O poema de 
Voltaire é uma bestialidade, é; mas é, também, uma 
necedade "*■». 

Filinto Elísio traduziu três cantos da Pucelle, e 
parou aí. 

Mais lhe valera nào ter começado. , 

PAES (OS) da Mãe Pátria, Lisboa, 1872. 
Em XIX pequenos cantos celebra o autor as ca- 
linadas e bernardices de vários deputados da naçào. 

Eu canto, á lyra mofina, 
Em versos mal acabados, 
Uns patuscos papa fina, 
A que chamam deputados. 

autor foi Gastão da Fonseca, 1.° oficial de ta- 
quigrafia na Câmara dos Deputados, e por largos 
anos redactor do Diário Ilustrado. Faleceu a 15 de 
Agosto de 1884. 

Em rieor não cabe aos Paes da Mãe Pátria a cias- 
sificaçào de poema, porque lhes falta unidade de 
acção; mas pode admitir-se que os mencionemos neste 
lugar, atendendo a que os heróis são tantos quantos 
os deputados calinos ali surpreendidos nas suas proe- 
zas contra a sintaxe e o senso-comum. 

1 A idéa de Deus, pág. 167. 



PORTUGUESES 129 

PALITO MÉTRICO, 

Vide Macarronea, 

PARODIA do poema de Aí. Pinheiro Chagas, offere- 
cido a A. F. de Castilho, auctor da Mnemónica, Arte de 
metrificação. Abe repentino, etc. 

Esta paródia ao Poema da Mocidade é uma das 
muitas composições de vária espécie a que deu origem 
a carta de Castilho apensa àquele poema e dirigida ao 
editor António Maria Pereira. 

Antero de Quental e Teófilo Braga foram atingi- 
dos de relance nessa notável carta literária por uma 
alusão às Odes modernas e Tempestades sonoras, que 
recentemente haviam publicado. 

Rompeu o fogo contra Castilho, no folheto Bom 
senso e bom gosto, Antero de Quental. Responderam- 
-Ihe Pinheiro Chagas, Manuel Roussado, Júlio de Cas- 
tilho. Veio à carga Teófilo Braga com o folheto As 
Theocracias litterarias. Engrossaram de uma e outra 
banda as hostes guerreiras e aguerridas. Na de Cas- 
tilho também se enfileiraram Camilo Castelo Branco 
e Ramalho Ortigão. Este, por causa do seu opúsculo 
Litteratura d'hoje, teve um duelo no Porto com Antero 
de Quental. 

Tal foi a chamada questão coimbrã, que literaria- 
mente assinalou o ano de 1865 e transbordou ainda 
para o de 1866 numa diluviosa inundação de folhe- 
tos, folhetins e artigos tanto em Portugal como no 
Brasil. (Veja-se no Dic. Bibliographico de Inocêncio o. 
artigo Bom senso e bom gosto, do tomo 8.°). 

9 



130 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

Um dos folhêtoS; sob o titulo Os litteratos de Lis- 
boa, inculca-se «poemeto», mas nào passa de uma in- 
feliz sátira. 

A paródia ao poema de Pinheiro Chagas foi pu- 
blicada no n.° 289 e seguintes da Liberdade, jornal 
de Coimbra (1865 a 1866). 

Nunca a pude vêr. 

PENA DE TALIÃO, poema herói-comico em 5 can- 
tos, por Alberto Pimentel. Famalicão, Tip. Minerva, 1913, 
Juízos emitidos pela imprensa: 

O Século em 1 de Abril de 1914: 

«Pena de Talião por 
Alberto Pimentel. 

«íamos começar assim esta notícia: «Este velho 
escritor ...» Mas teremos nós direito a chamar-lhe 
velho só porque encaneceu e quando a sua musa fa- 
ceta nos aparece toucada de louçanias reveladoras de 
uma robusta mocidade? Nào, nào temos esse direito. 
^ Barros Lobo disse um dia de Pinheiro Chagas: 
«velho não; é apenas o mais velho de nós, os rapa- 
zes». O mesmo se deve dizer de Alberto Pimentel. 
A velhice implica um certo numero de coisas que 
baldadamente procuraremos n'este escritor tão ele- 
gante como terso. 

«N'uma época de rapazes rabugentos como a 
nossa, dá gosto ler um livro escrito por este homem 



PORTUGUESES 131 

de cabelos brancos. Ele nunca perde a bonhomia, o 
feitio amável. E representando a sua vasta obra um 
trabalho imenso de investigação e de estudo, Pimentel 
nunca teve o ar impertinente de ensinar á gente 
qualquer coisa. Comtudo poucos escritores portugue- 
ses terão prestado serviços de critica histórica e de 
informação varia como Alberto Pimentel e nenhum o 
excedeu em probidade. 

«Ele ministrou a duas gerações conhecimentos so- 
bre factos e pessoaS; que só se obteriam, se se obti- 
vessem, com o trabalho incessante de muitos anos. 
E condensou todo esse cabedal em volumes de uma 
linguagem soberba, amenisando, com as suas brilhan- 
tes qualidades de escritor elegante e antigo padre-mes- 
tre do folhetim, matéria que teria feito adormecer o 
menos dorminhoco quando tratada por outros. É ver 
esse belo livro «As amantes de D. João V». É ver a 
«Vida mundana de um frade virtuoso». £... Mas 
para que insistir? Não se concebe que um português 
culto desconheça uma grande parte da obra de Albero 
Pimentel. 

Ainda ha pouco registamos em poucas linhas o 
aparecimento de um livro seu, cujo titulo não nos 
ocorre, sobre a desventurada D. Ana Plácido, a mu- 
lher de Camilo Castelo Branco. E já hoje nos apa- 
rece um outro, «Pena de Talião», poema heroe-comico. 

«O heroe d'este poema é o ilustre António Diniz 
da Cruz e Silva, autor do «Hissope». Como se sabe, 
António Diniz satirizou no seu poema um conflito de 
etiqueta entre o bispo de Elvas, D. Lourenço de Len- 



132 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

castre, e o respectivo deãO; José Carlos de Lara. Ora, 
mais tarde, indo Diniz ao Brazil, em 1776, como 
desembargador da Relação do Rio de Janeiro, ali to- 
mou parte, com outros seus colegas, contra o vice-rei 
Luiz de Vasconcelos e Sousa, n'uma análoga dissen- 
são de etiqueta, qual foi a de precedência de logares 
nas receções de grande gala. 

«O facto, fundamentalmente autenticado em do- 
cumentos irrecusáveis, deu azo ao novo trabalho de 
Alberto Pimentel. 

«D'aqui o titulo «Pena de Talião». 

«O poema, em cinco cantos, é atravessado por 
uma corrente de comunicativo bom humor, que leva 
o leitor até á última página sem interrupção. Tecnica- 
mente é de absoluta perfeição. E da linguagem seria 
ocioso falar. Alberto Pimentel é daqueles escritores a 
quem o português não deve ofensas ou judiarias». 

Diário de Noticias £m 5 de abril de 1914: 

«Pena de Talião» — 
Poema Herói-Comica, de 
Alberto Pimentel: 

«Quando ha tempos lemos um interessante traba- 
lho sobre Camillo, em que principalmente se punha 
em destaque a nobre e infortunada figura de D. Anna 
Plácido, a companheira do genial autor do Amor de 
Perdição, trabalho firmado por Alberto Pimentel, que 



PORTUGUESES 133 

tão de perto conheceu e apreciou o solitário de São 
Miguel de Seide, felicita mo-nos por ver restituído ao 
labor literário um escritor dos mais fecundos da nossa 
terra e que, como folhetinista; critico, romancista e 
investigador histórico, afirmara durante largos anos 
os primores dum dos talentos dos mais dúcteis e ma- 
leáveis que temos conhecido. Hoje cabe-nos o dever 
de consagrar algumas linhas a uma outra obra sua, 
que bem demonstra a facilidade com que as suas fa- 
culdades se ajustam e brilham nos mais diversos gé- 
neros. Todos conhecem o precioso poema herói-co- 
mico de António Diniz da Cruz e Silva, em que 
Elpino, vulto dos mais celebrados da Arcádia, contou 
as brigas do bispo de Elvas e do seu deào José Car- 
los de Lara, motivadas por uma ridícula questão de 
pragmática. Pois o poeta satírico, que tanto ridículo 
acarretou sobre as memorias do bispo e do deão, mais 
tarde, no Brasil, deixou-se dominar também por orgu- 
lhos e prosapias e provou que no melhor pano cai a 
nódoa. Sendo desembargador da Relação do Rio de 
Janeiro, tomou parte com outros seus colegas numa 
ruidosa divergência com o vice-rei Luiz de Vascon- 
cellos e Sousa. Essa divergência, originada também 
por uma dissençào de etiqueta, está autenticada por 
documentos irrecusáveis e constitue o assunto do poe- 
ma herói-comico do sr. Alberto Pimentel e a que o 
autor com felicidade e acerto poz o nome de Pena de 
Talião. Para mais o amenisar, o autor introduziu-lhe 
um verosímil trama galante, que justifica ostensiva- 
mente a causa do conflito e lhe permite assim reme- 



134 POEMAS HEROI-COMICOS 

diar o defeito do Hissope, que por falta de intriga 
amorosa é por vezes árido e frio. 

«O distinto escritor, que dispõe duma fina e apu- 
rada sensibilidade literária, escreveu o seu poema em 
versos rimados, nào usando portanto o verso solto ou 
branco empregado na obra de António Diniz. Justi- 
fica ele exuberantemente o seu proceder com as se- 
guintes palavras: «Em primeiro lugar, eu não tive a 
louca pretensão de emparelhar com o Hyssope. Em se- 
gundo lugar, entendo que o verso branco só traba- 
lhado magistralmente como o de Garrett, se podia 
aturar ha cincoenta anos, e que hoje, ainda quando 
feito em boas condições, que eu nào possuo, de 
técnica feliz, deixa no espirito do leitor uma descon- 
solada impressão de estética incompleta ou de monó- 
tona insuficiência melódica». 

«E acrescenta, fundamentando ainda melhor o seu 
parecer, «que a rima é a chave sonora que fecha a 
linha ritmica do verso e contribue pela riqueza de 
euritmia para o brilho sinfónico da expressão metri- 
ficada». 

«A Pena de Talião lê-se com indizível prazer. A 
acção é graciosa, os personagens estão bem desenha- 
dos, a impressão de graça e a do ridículo resultam 
naturalmente dos episódios e não do esforço ou exa- 
gero do autor e para mais se valorisar esse belo vo- 
lume fecha com uma serie de notas muito interessan- 
tes, algumas das quais são suficientes para se avaliar 
do escrúpulo com que o sr. Alberto Pimentel procede 
em todos os seus trabalhos e da sua larga erudição 



PORTUGUESES 135 

e preciosos dotes de investigador. Oxalá que ele não 
esmoreça neste novo período dum verdadeiro resur- 
gimento literário e nos continue a dar mais provas 
do seu estudo e solida ilustração». 

A Capital em 5 de março de 1914: 

«Alberto Pimentel, do Instituto histórico e geogra- 
phico brazileiro, publicou um poema heroe-comico, em 
cinco cantos — Pena de talião — que visa a applicar ao 
auctor do Hissope o mesmo tratamento que elle appli- 
coU; em verso mordaz, ao bispo de Elvas e ao seu 
deão. Não se pode dizer que a musa de Boileau o 
inspirasse. Todavia, lê-se facilmente, porque as rimas 
correm ligeiras e lépidas, como as arveloas em terra 
fresca.- Para Alberto Pimentel nos poder dar uma 
replica digna do seu heroe seria necessário que pos- 
suísse o temperamento de um satirista. E como o não 
tem, o seu poema indica tão somente um escriptor 
cheio de recursos que, embora n'um género litterario 
ingrato, sabe aguentar-se». 

PERODANA, ou o consHiabulo (sic) dos periódicos, 
poema herói-comico por Jo^ Anselmo Correia Henriques. 
Veneza, 1819. 

Inocêncio apenas acrescenta a esta sucinta indica- 
ção bibliográfica — que o poema abrange 40 pág. 
em 8.°. 

Mas o sr. capitão Ferreira de Lima possui uma 
cópia, que me facultou e eu examinei. 



136 POExMAS HERÓI-CÓMICOS 

A cópia é manuscrita, talvez autografa, porque não 
suponho que outra pessoa, além do autor, tivesse a 
paciência precisa para caligrafar com esmero uma tão 
enfadonha sensaboria. 

Correia Henriques atira-se aos periodistas em ge- 
ral, e a alguns em especial, como Santiago aos 
mouros. 

Canto da Inépcia o Reino tenebioso; 
Cantaiei burrical, negra matilha 
De valentes, acérrimos Quixotes, 
Gentes, que sem moral e sem vergonha, 
A Sandice proclama em toda a parte; 
Egrégios papelões de novidades. 

E, para isto, pede êle à musa «sublimado metro» 
e «estilo novo>. 

A Musa fez ouvidos, de mercador" e não andou 
mal. 

Toda a acção é froixa e difusa, e o verso solto. . . 
até por vezes na linguagem. 

A deusa Perodana presidia ao concílio dos perio- 
distas 

Num alto throno /eito de palitos 

e, para os glorificar, ordenou que trouxessem à sua 
presença o arquivo das sandices jornalísticas, a que 
seriam feitas jucundas saudações. 

Mas Apolo, indignado, expediu do Olimpo um 
fatal raio, 



PORTUGUESES 137 

Que o Archivo abrasou da papelada, 
E súbito transforma em labaiedas 
Os infames jornaes de vil leitura. 

Suspeito que o arquivo já deve estar outra vez 
cheio. 

Vide Charlatanismo. 

PINHEIRADA poema hístorico-burlesco, efe. Bra- 
ga, 1888. 

O herói deste poema era o professor do liceu de 
Braga Manuel Pinheiro de Almeida e Azevedo, e o au- 
tor foi o dr. 'Pereira Caldas, também professor do 
mesmo liceu. 

As 19 pág. do folheto compreendem apenas o 1.° 

canto, em 36 estâncias. 

Pereira Caldas nào continuou o poema, e fez 
bem. 

Diz êle que o começara a compor por solicitações 
de amigos. Mas tratáva-se de um colega, embora pouco 
simpático, e melhor seria ter afastado da sua banca 
de erudito um assunto violentamente pessoal. 

Conheci muito bem tanto o herói como o autor 
do poema. 

Por isso acho exactíssimo este retrato do protago- 
nista da Pinheirada, desenhado por um seu antigo 
discípulo : 

«Por esse tempo Manuel Pinheiro era o homem 
do Lyceu. 

«De compleição rija e estatura elevada, se bem que 



^Jk 



138 POEMAS HEROI-COMICOS 

algo giboso e tramblazana, rosto magro e comprido, 
encaixilhado em farta marrafa de cabellos negros e 
barba de passa qualquer coisa, nariz adunco e traços 
enérgicos, vivaz, saccudido, importante, eminente, e 
sobretudo fallador inexgotável na cadeira e fora. 

«Era das bandas de Vizeu, e de lá veio para mes- 
tre de latim em Vianna, disciplina em que fora muito 
versado, segunda corria fama. De Vianna passou ao 
Lyceu de Braga na qualidade de professor de philo- 
sophia racional e moral, como entào se dizia. Deu a 
trabalh%ç com affinco, e a forragear por Laromiguière 
e Victor Cousin umas apostilas âo-Genuense, que pu- 
blicou mais tarde, refundiu e completou. 

«Estas lucubrações, e um pouco também o seu 
humor acre e génio atrabiliário, valeram-lhe umas crí- 
ticas e não poucos dissabores, com que grandemente 
se amofinava. 

«Para maior quesilia, os críticos eram dois moços 
mal saldos dos bancos do Lyceu: José Marnoco, que 
morreu abbade de Souzellas, discutiu-lhe o valor da 
doutrina metaphysica; e Gabriel Pereira de Castro, 
depois jesuita, castigou-lhe a linguagem das «Aposti- 
las», crivada de gallicismos. 

«Outros, (e Deus tenha perdoado a todos, que já 
lá estão), martirisaram-no deshumanamente e durante 
annos, de modo indecoroso e por vezes cruel. 

«Não obstante, luctando e trabalhando sempre, viu 
approvados para o ensino os seus livros e abertas as 
portas da Academia Real das Sciencias de Lisboa, cuja 
farda agaloada e demais aprestos, espadim e, chapéu 



PORTUGUESES 139 

emplumado, ostentava com toda a correcção nos so- 
lemnes Te-Deums da Sé. 

«Afinal com a jubilaçáo e os achaques da velhice 
caiu de repente na obscuridade, a ponto da sua morte 
ter um dos mais pobres saimentos que tenho visto 
n'uma cidade!» 

.Com saudosa persistência fica sempre na memória 
dos discípulos a figura dos professores. 

POEMETO HEROI-COMICO. Incompleto (apenas 
três cantos em oitava-rima) incluído nos Últimos ver- 
sos,— Vorio, 1907 — livro póstumo de Augusto Luso 
da Silva. 

O autor, que por largos anos exerceu o magisté- 
rio no Liceu Nacional do Porto, ocupa-se nesta com- 
posição de assuntos e pessoas do mesmo liceu, então 
sob a reitoria do dr. Francisco Martins, lente da Uni- 
versidade, cuja orientação lhe parecia reaccionária, 
posto que apoiada por alguns dos professores. 

Àquele e a estes celebra no poemeto. 

Se os não posso louvar como convinha, 
Cantá-los-hei ao som de campainha. 

Augusto Luso, espírito muito culto e professor in- 
sinuante, ia adiantado em anos, e esta composição é 
mais filha da amargura que lhe causara o ter sido 
afastado do magistério, que de qualquer tendência de 
combatividade cáustica em que aliás não estava exer- 
citada a sua aptidão poética. 



140 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

POLIFEMO E GALATEA por Jacinto Freire de 
Andrade no tomo 3.° da Fénix Renascida. 

Mencionamos esta composição não porque seja 
propriamente um poema herói-cómico, mas porque 
foi escrita numa intenção de paródia a essa chilra 
inundação de Poíifemos seiscentistas, que tiveram conio 
pai o Polifemo de Gongora. 

PORTUGAL, PEDRO, PEDREIRADA. Poema, Lu- 
siada do avesso. Composto no ano de 1840. Manus- 
crito, que no catálogo da livraria Fernandes Tomás 
tem o n.° 6117, e a seguinte rubrica: Muito curioso. 
Inédito. 

A indicação «Lusíada do avesso» é o único fun- 
damento que tenho para supor que seja um poema 
herói-cómico. 

PUNDONORES (OS) desagravados, poemeto em 
duas partes, offerecido aos Académicos Portuenses. — 
Porto, 1845. 

Este poema herói-cómico é de Camilo Castelo 
Branco. 

Na 1.^ edição, hoje muito rara, saiu anónimo, mas 
foi reimpresso no mesmo ano, conjuntamente com o 
Juízo Final, e então apareceram no frontispício as ini- 
ciais do autor — C. F. B. ,C. Branco (Camilo Ferreira 
Botelho Castelo Branco). 

É uma produção de estudante, escrita ao correr 
da pena para celebrar o duelo em que foram conten- 



PORTUGUESES 141 

dores N (que julgo ser Novais Vieira ou Novais dos 
óculos e A (Arnaud). 

Parece que por esse tempo houve no Porto outro 
duelo entre o marquês de Chardonnais e Passos Pi- 
mentel, o que deu causa a que Vieira de Castro, na 
Biografia de Camilo, se equivocasse identificando este 
duelo com aquele. 

Camilo nào se limitou a satirizar em verso o 
duelo de A e N; também pôs a sátira em acçào para 
ridicularizar a mania dos duelos, que ameaçava per- 
turbar a vida pacificamente burguesa do Porto. 

Foi o caso que êle e o estudante Freitas Barros 
resolveram realizar no então solitário lugar da Torre 
da Marca um duelo-paródia, que teve hilariante noto- 
riedade. Mas voltemos aos Pundonores desagravados, 
crónica metrificada do duelo entre N e A. 

Camilo principia dizendo:- 

Eu canto dous heroes, cujas façanhas 

Virgílio não cantou, nem inda Homero: 

Legitimes heroes que o Porto habitam, 

Aonde excelsos feitos, sempiternos, 

Excedem os n'outr'ora praticados 

Em Frigia, ou em Carthago, em Roma ou Grécia, etc. 

Nem este poemeto nem o Juizo Final faziam crer 
que estivesse no seu autor o embrião literário dum 
escritor eminente, tal como Camilo foi. 

A Parceria António Maria Pereira fez uma repro- 
dução zincográfica da 1.* edição (1845) dos Pundono- 
res desagravados, sendo de 60 exemplares a tiragem. 



142 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 



O 



QUERCULANAIDA, poema allegorico, por hum Vi- 
nagrista da terra dos vinagres. Lisboa, na Imprensa 
Nacional, 1822. S."" de 64 paginas. 

Inocêncio (no tomo 7.°, pág. 37 do Dic. Bibl.) dá 
as seguintes indicações: 

«A tabula ou acçào d'este, hoje pouco menos que 
ignorado, poema (com pretenções a heroi-comicO; em 
quatro cantos de versos hendecasyllabos soltos) é o 
estabelecimento allegorisado da Companhia dos Vinhos 
do Alto-Douro, emprehendido, segundo diz o auctor, 
no anno da hégira 1134 (1757 da er^ vulgar) pelo 
visir Querculano, isto é, pelo depois marquez de Pom- 
bal Sebastião José de Carvalho, cujo appellido em 
latim é Quercus, como se sabe. Creio nào enganar-me 
affirmando que esta composição é de António Lobo 
Teixeira Ferreira Girào (veja no Diccionario, tomo I, 
pag. 184) entào e sempre um dos maiores adversários 
da Companhia. Pelo menos é certo haver sido elle 
quem o mandou imprimir na Imprensa Nacional, e 
pagou a respectiva despeza, o que verifiquei por 
assento que d'isso existe no livro competente». * 

A pessoa acima indicada veio a ser, anos depois, 
1.° visconde de Vilarinho de S. Romào, e o seu nome 
todo era António Lobo de Barbosa Ferreira Teixeira 
Girào. 



PORTUGUESES U3 

Adoptou no poema o criptónimo — Vinagrista — 
por ser esta a denominação irónica que a Companhia 
dava aos seus adversários. 

No tomo 8.° do Diccionario (1.° do Suppl.) diz 
Inocêncio: «Creio que sem a minima duvida pode 
attribuir-se-lhe (a Qirào) a composição do poema he- 
roi-comico Querculanaida» . 

Contudo nào devo omitir que na Noticia biogra- 
phica daquele titular, escrita por seu sobrinho Antó- 
nio Luís Ferreira GirãO; e publicada pela casa More 
no Porto em 1870, se nos deparou a relação das suas 
obras «publicadas e inéditas» incluindo as traduções 
de Boileau, Estante do coro e Satyra do homem, sem 
que nela se faça mençào alguma da Querculanaida. 

Eu nào concordo em que este poema tenha pre- 
tenções a herói-cómico, e muito menos em que o seja. 

É alegórico, nào há dúvida: mas foi escrito para 
despertar indignação, e nào hilaridade, contra a Com- 
panhia dos Vinhos do Alto Douro, pondo em relevo 
— e até querendo atingir às vezes uma sentimentali- 
dade trágica — os tumultos a que a sua fundação deu 
causa e foram severamente punidos por Sebastião 
José de Carvalho. 

Esta nota final concorda com o diapasão geral do 
poema: 

Eis do pfotervo monstro 1 a sua origem: 
Do despotismo he filho e seu herdeiío, 
He dos demónios mimo e prenda cara, 

1 A Companhia. 



144 POEMAS HEROI-CÓMICOS 

He, finalmente, hum cancro terrível 
Que devemos curar com ferro e fogo. 

E nós devemos dizer qu^ todo o poema é uma 
sensaboria. . . alegórica. 

QUIXOTADA ou vida de D. Fr. Caetano Brandão, 
arcebispo de Braga. 

Este título parece prometer um poema herói-có- 
mico. Nào é assim, porém. Trata-se de uma sátira vio- 
lenta, revoltante, injustíssima contra aquele venerando 
prelado bracarense, de cujas virtudes há hoje pleno e 
certo conhecimento e cujo nome será eternamente 
abençoado pela memória dos povos e pelo consenso 
dos historiadores. 

Mas D. Frei Caetano Brandão, constrangido a 
aceitar a mitra do Pará e depois o báculo do arcebis- 
pado primaz de Braga, foi perseguido durante a vida 
íinicamente por aqueles que, inveterados em antigos 
abusos e escândalos, nào queriam sofrer advertência 
nem correcção. 

Estava neste caso a classe eclesiástica, incluindo o 
próprio cabido da sé arquiepiscopal. Entre o clero, 
talvez entre as mesmas dignidades capitulares, deve 
ter vegetado anonimamente o miserável autor da sátira. 

Nào cabe ela no programa que nos propusemos. 
Por isso, e até pelo seu carácter odioso, a deixaríamos 
no escuro dos panfletos imundos, se nào a conhecês- 
semos por uma cópia manuscrita em que concorrem 
especiais circunstâncias bibliográficas. 



PORTUGUESES 145 

A referida cópia é toda do punho de Inocêncio 
Francisco da Silva, que a concluiu e rubricou no 
dia 18 de Março de 1849. 

Escrevendo uma série de artigos acerca de D. Frei 
Caetano Brandão (Archivo piftoresco, vol. 8.° — 1868), 
Inocêncio refere-se às «satyras injuriosas e libellos in- 
fames», que eram clandestinamente espalhados contra 
o benemérito antístite, menciona aquela sátira e acres- 
centa por anotação: «Possuímos entre os nossos ma- 
nuscriptos uma cópia da Quixotada, que é um aggre- 
gado de cincoenta e quatro decimas octosyllabas, em 
que se propalam contra o virtuoso prelado as mais 
atrozes calumnias». 

A mesma cópia, que Inocêncio tirou e possuiu, 
pertence hoje ao nosso amigo sr. Henrique Marques, o 
qual obsequiosamente no-la facultou. 



R 



RAPHAELEIDA (A). 

Trindade Coelho (In illo tempore) faz referência a 
este poema, composto em 300 versos pelo estudante 
de direito Alfredo da Cunha, que depois foi proprie- 
tário e director do Diário de Notícias. 

O herói era Rafael Rodrigues Correia, a quem os 
condiscípulos chamavam o Avô do curso, por ser o 
mais velho de todos eles. 

10 



146 POEMAS HEROI-COMICOS 

RA TOS (OS) da alfandega de Pantana, poema bur- 
lesco em 8 cantos, dedicado a todas as alfandegas do 
Universo, por J. M. P. — Porto, Typ. da Revista, 1849, 

Aquelas três iniciais nào correspondem à verdade 
do nome do autor, que foi Camilo Aureliano da Silva 
e Sousa; o qual eu ainda conheci procurador régio 
junto da Relação do Porto. 

Era homem de inclinações literárias, traduziu ai- 
guns romances estrangeiros e foi o editor da Anti- 
-Catastrophe. 

Nos últimos anos da vida dedicava-se muito à flo- 
ricultura e colaborou largamente no Jornal de horticul- 
tura pratica, 

O assunto do poema são as irregularidades que, 
segundo corria, inquinavam a administração da alfân- 
dega do Porto, cujo director era o barão de S. Lou- 
renço (de Asmes, concelho de Valongo). 

A essas irregularidades se referia insistentemente a 
imprensa portuense designando-as pela expressão pi- 
pitoresca de — ratos da Alfândega. 

Por decreto de 5 de outubro de 1849 foi no- 
meada uma comissão de inquérito à alfândega do 
Porto e do seu relatório se vê que nào menos de 5:000 
pipas de vinho^sairam pela barra do Douro sem que 
os respectivos direitos aduaneiros fossem pagos. 

Segundo esta nota oficial, a voz do povo tinha ra- 
zão, e o poeta também. - 

Explicando o título da sua obra diz o autor no 
prólogo: <0s Empregados da "Alfândega de Pantana 
também são por consequência Ratos, Ratões, e Rata- 



PORTUGUESES 147 

zanas: são as suas proezas, e a maneira por que ali fa- 
zem os despachos das mercadorias importadas, que 
formam o objecto do presente poema». 

E no i.° canto propõe o assunto dizendo: 

Os Ratos e os Ratões assignalados 
Da Alfandega^famosa de Pantana; 
(Que é covil de larápios e quebrados 
E terra mui chegada à' Lusitana), 
Seus feitos até hoje não cantados, ^ 

Sua por oiro insaciável gana, 
Em verso levarei á luz do dia, 
Deitando abaixo toda a livraria. 

O poema tem graça, sobretudo para quem, como 
eu, pode penetrar o sentido de todas as alusões pes- 
soais. Trata-se do Porto da minha infância, e de gente 
que eu ainda conheci — pelo menos de nome ou de 
vista. 

Nos poemas herói-cómicos fazem muita falta as 
notas explicativas; mas neste compreende-se a ausên- 
cia delas melhor que em nenhum outro. 

Algumas das personagens que figuram nos Ratos 
entram também nas Commendas. (Vide esta palavra). 

Ainda quero dizer, sobre o assunto do poema, que 
uma página da escandalosa crónica dos roubos na 
alfândega do Porto pode ser lida no periódico O Tri- 
peiro n.° 24 de 20- de fevereiro de 1Q09, pág. 82, 
col. l.^ 

Quanto ao autor do poema, li no catálogo da bi- 
blioteca de António Moreira Cabral (2.^ parte, Por- 
to, 1909, pág. 490) a seguinte nota bibliográfica a 



148 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

respeito de Os ratos dd alfandega: «Apenas há hoje 
dous homens que sabem do facto, de ser autor deste 
poema, o Dr. Camillo Aureliano da Silva e Souza, que 
morreu Desembargador do Porto; por terem sido da 
intimidade dele, e assistirem à revisão das provas». 

Eu soube-o há já longos anos, porque mo disse o 
sr. D. António Aires, então bispo de Betesaida e de- 
pois arcebispo de Calcedónia. 

De modo que se s. ex.^ não foi uma daquelas 
duas pessoas, eram três -e não duas como afirma cate- 
goricamente a nota. 

Não me contou o sr. D. António que tivesse assis- 
tido à revisão das provas, mas assegurou-me de sciên- 
cia certa que o autor tinha sido Camilo Aureliano, seu 
patrício e seu amigo íntimo. 

RATOS (OS) da inquisição, poema inédito do judeu 
portuguez António Serrão de Crasto, prefaciado por Ca- 
millo Castello Branco. Porto, 1883. 

O assunto deste poema, composto em décimas no 
cárcere da Inquisição de Lisboa, são os ratos que in- 
festavam a cela do autor. 

«O poema de Serrão — diz Camilo — é monótono. 
Elle explora tudo o que os ratos lhe podiam fornecer 
de imagens cómicas. Deram-Ihe muitas, mas deficien- 
tes para colorirem variadamente a grande tela que 
desenrolou no seu calabouço. O desgraçado agarra- 
va-se àquella idea burlesca para salvar-se de si mesmo». 

É monótono, sim, e além disto, eivado de ressaibos 
do século XVII, o que lhe aumenta a monotonia; mas 



PORTUGUESES 149 

tem o raro valor de ser um poema herói-cómico es- 
crito com lágrimas entre as garras da Inquisição. 

REINO (O) da Estupidez, poema heroi-comico em 
quatro cantos, de ***. 

Atribui-se geralmente êsíe poema ao português- 
-brasileiro Francisco de Melo Franco, natural de Pera- 
catu, bispado de Pernambuco, onde nasceu em 1757. 

Diz-se também que tivera por colaborador o seu 
patrício e amigo José Bonifácio de Andrade e Silva. 

É esta a opinião de Teófilo Braga (Hist. da Univ.) 
que repele a hipótese da colaboração de Francisco 
José de Almeida, admitida aliás por José Agostinho 
de Macedo nos Burros. 

Melo Franco veio à metrópole para cursar a fa- 
culdade de medicina em Coimbra e, quando estu- 
dante, foi denunciado à Inquisição como hereje: por 
este motivo saiu no auto de fé que se realizou naquela 
cidade a 26 de agosto de 1781 e depois sofreu a 
pena de reclusão no convento de Rilhafoles, em Lisboa. 

Conseguindo readquirir a liberdade, voltou a con- 
cluir o seu curso em Coimbra. Mas não ia alquebrado 
de ânimo; pelo contrário, procurou vingar-se dos seus 
perseguidores conimbricenses divulgando contra êles; 
por cópias manuscritas, um poema herói-cómico, em 
tão cauteloso mistério composto e espalhado \ que a 
muitos foi atribuído, menos ao verdadeiro autor. 

1 O poema foi composto em 15 dias, e subrepticiamente dis- 
tribuído por ocasião duma solenidade universitária. 



150 POEMAS HEROI-COMICOS 

Os lentes e outras pessoas que o Reino da Estu- 
pidez atingia, quiseram por sua parte desafrontar-se : 
e daqui nasceram várias réplicas satíricas, as quais 
felizmente erraram o sobrescrito, pois ninguém sus- 
peitava de Melo Franco nem de José Bonifácio. — 
Vide Zelo (O). 

E enquanto os atingidos no poema barafustavam 
e queriam descobrir quem era o autor, este, muito 
bem encapotado no seu impenetrável anonimato, ria 
deles e ia-os de novo tosando num quinto canto, que 
se conserva ainda inédito, e cuja existência foi reve- 
lada por Teófilo Braga. 

A 1.^ edição do poema viu a luz pública no ano 
de 1819, em Paris, onde também se estampou a 2.^ 
edição em 1821, assim como a 4.^ que faz parte do 
tom. VI (Saty ricos Porfuguezes) do Parnaso Lusitano 
(1834); a 3.^ edição é de Lisboa (1833), impressa na 
oficina de João Nunes Esteves; a 5.^ é de Barcelos 
(1868) e saiu da tipografia da Aurora do Cávado por 
iniciativa e a expensas do dr. Rodrigo Veloso; a 6.* 
é do Rio de Janeiro, (1910), na 2.^ edição dos Saty- 
ricos Portuguezes ^. 

O Reino da Estupidez, escrito em verso solto, é 
um poema interessante: nisto sinto discordar de dois 
brasileiros ilustres: Silvio Romero e João Ribeiro. 

A Estupidez, querendo fundar um reino, vai esta- 



1 Ultimamente o Archlvo do bibllôphllo {nP 19) denunciou a 
existência de mais uma edição, feita em 1822, mas com o título 
A Estupidez em três cantos. 



PORTUGUESES 151 

belecer-se em Coimbra, onde logra ser recebida com 
grandes festas pelos doutores e pela cidade. A che- 
gada da Estupidez e a sua recepção no meio de rui- 
dosas aclamações e com solene pompa, constitui a 
matéria do último canto, seguramente o melhor. 

Fica-se com pena de que o poema não seja mais 
extenso, quando fácil seria ao autor e ao seu auxiliar, 
se o teve, continuarem-no durante muitos outros can- 
tos, pois que nem a matéria nem a graça lhes fal- 
tavam. 

Assim, havemos de contentar-nos com vêr que a 
Estupidez, satisfeita da vassalagem entusiasticamente 
prestada pelos capelos mais caturras e improgressivos, 
os abençoou e prometeu nào os abandonar no futuro: 

Eu gostosa vos lanço a minha benção; 

Continuai, como sois, a ser bons Filhos, 

Que a mesma, que hoje sou, hei-de ser sempre. 

O escândalo produzido pela divulgação do Reino 
da Estupidez propagou-se de Coimbra a Lisboa, onde 
também as opiniões se dividiram. 

O Lobo da Madragôa foi um dos poetas morda- 
zes, que na capital- mais violentamente investiram con- 
tra o poema. (Veja-se o soneto XCIX nas suas Poesias). 

REVOLUÇÃO (A) poema heroi-comico em 6 cantos, 
e oitava-rima. Pariz, 1850.. 

Este poema (que suponho nào ter sido impresso 
em Paris, mas no Porto) canta a agitação revolucio- 
nária desta cidade depois do «golpe de Estado» de 



152 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

1846 e o seu ali principal fautor, José da Silva Pas- 
sos, que trata por — Zé de Bouças — pois que tanto 
êle como o irmào, Passos Manuel, nasceram em Bou- 
ças de Matozinhos. 

O famoso varão, que aventureiro, 
Sentindo d'Ambição a tesa espora, 
Lidou por occupar alto poleiro, 
No espaço imaginário, sem escora; 
E que infeliz tombou ao chão rasteiro, 
Depois de trabalhar, como uma nora; 
Cantarei, como saiba, e como possa. 
Segundo a minha Musa, fina, ou grossa. 

José Passos foi, nào há dúvida, um grande agita- 
dor político e poderoso auxiliar de seu irmào na re- 
volução e na junta do Porto. 

O poema atribui-lhe o fermento da revolução no 
Minho, como núcleo de propagação do movimento 
patulea, que aliás se nào pode lançar unicamente à 
responsabilidade de José Passos. 

Oh Maria da Fonte ! Oh regateira ! 

Vã plebe! Que comeste a patarata, 

De que a lei tributaria era uma asneira, 

Que vos levava as casas, bois e mata, 

Em venda^ou hypotheca sorrateira. 

Ao paiz da cerveja, e da batata! 

Que entrastes fáceis na loucura péssima 

Que as tranças mulheris pagavâo decima ! 



Fui só eu 1, que mechi â tanto estulto 
As molas, com que armei a contradança. 



1 José Passos. 



PORTUGUESES 153 

Um dos episódios mais interessantes da revolução 
do Porto foi a reclusão do Duque da Terceira no 
castelo da Foz. 

A tradição diz ter sido António Navarro quem 
prendeu o Duque, e o poema duas vezes se refere a 
este incidente na estância 55 do canto I e na estância 
38 do canto VI. 

Contudo, no livro Traços de historia contemporâ- 
nea (Porto, 1880) que o sr. António Teixeira de Ma- 
cedo escreveu sobre notas deixadas por Manuel e José 
Passos, apenas se lé a este respeito que tinha o pa- 
triota António Navarro, entrando na sala (do conde 
de Terena), «declarado ao duque, que o povo exigia 
que êle fosse preso para os paços do concelho». 

Isto não significa o mesmo que ter-lhe dado, pes- 
soalmente, voz de prisão. 

Perante a atitude hostil do povo, o próprio Duque, 
que não pôde embarcar, conveio em se deixar condu- 
zir ao castelo da Foz, para maior segurança de sua 
pessoa, que sempre José Passos protegera nobremente. 

Eis aqui um caso a averiguar; apenas por inci- 
dente a êle me refiro. 

O poema A Revolução é, pois, uma sátira política, 
de regular merecimento literário. 

Tempo depois de escrito este artigo li a seguinte 
passagem do discurso proferido pelo Duque de T,er- 
ceira, na câmara dos Pares, em 5 de fevereiro de 1848: 

«No entanto o povo continuava não só a aproxi- 
mar-se da casa onde eu estava (o palácio dos Terenas 
na Torre da Marca), mas já muitos invadiam a mesma 



154 POEMAS HEROI-COMICOS 

casa, e nessa occasião um individuo, pessoa muito ca- 
paz, e de uma particular educação, um celebre Navarro, 
um famigerado miguelista, entrando sem decoro na 
sala onde eu estava, me disse gritando com insolên- 
cia: — Eu sou representante do povo, e em nome desse 
povo venho dizer a V. Ex.^ que saia já e quanto an- 
tes desta casa, e venha para as casas da Camará, onde 
será bem tratado, aliás irá para o Castelo da Foz — 
por única resposta ordenei-lhe que se retirasse ime- 
diatamente, e voltei-lhe as costas.» 

ROBERTO ou a dominação dos agiotas, poema 
heroi-comico por Manoel Roussado — Parodia ao notável 
poema de Thomaz Ribeiro « D. Jayme ou a dominação 
de Çasiella» —Lisboa, 1862. 

autor — depois barào de Roussado \ e residente 
no estrangeiro como cônsul de Portugal — já anterior- 
mente tinha dado provas de humorismo no folhetim 
e no verso, de modo que estava muito mais à vontade 
do que Guilherme Braga no Mal da Delfina, posto 
Guilherme Braga fosse, como poeta, muito superior a 
Roussado. 

O poema é precedido por uma carta de Tomás 
Ribeiro, carta de aplauso, sim, mas lacónica e trans- 
parente: vê-se que o autor do D. Jayme, conquanto 
nàq gostasse muito de se ver parodiado, se refugiava 
na ideia consoladora de que «nào se parodiam senão 
as obras notáveis.» 

1 Faleceu em Inglaterra no dia 22 de dezembro de 1909. 



PORTUGUESES 155 

» 

Todavia entre Tomás Ribeiro, Manuel Roussado e 
Guilherme Braga as relações pessoais foram sempre 
amistosas. 

Nem havia motivo para o contrário. 

RODRIGO (D.), poema épico (por antifrase). Lis- 
boa, 1838—2.^ edição, Porto, 1852. 

É uma sátira violenta contra Rodrigo da Fonseca 
Magalhães, que já então havia sido ministror^ela pri- 
meira vez, e cuja vida é acompanhada passo a passo 
pelo autor do poema durante os únicos três cantos 
que foram impressos. 

A forma estrófica é uniforme: uma sequência inin- 
terrupta de décimas. 

A paternidade deste poema foi atribuída ao barão 
de Ribeira de Sabrosa (Rodrigo Pinto Pizarro de Al- 
meida Carvalhais), ao visconde.de Almeida Garrett e 
ainda a outra pessoa, cujo nome Inocêncio não pôde 
recordar (Dicc. Bibl., vol. IP, pág. 165). 

Este bibliógrafo inclina-se para a primeira hipó- 
tese. 

Eu não posso asseverar que o autor fosse Rodrigo 
Pizarro; mas o que assevero, com a maior convicção, 
é que não foi Garrett. 

Nada, neste poema, revela a sua individualidade 
literária, ainda quando êle tivesse procurado disfar- 
çá-la: «chassez le naturel, il revient aii galop.> 

Não obstante já vi num catálogo de livreiro atri- 
buir-se D. Rodrigo a Garrett, por simples especulação. 

O texto é ilustrado com 26 notas finais. 



156 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 



SALDANHEIDA (A). 

Comunicação do meu ilustrado amigo sr. capitão 
de artilharia Henrique de Campos Ferreira Lima: 

«Folheando um jornal da época da Patuleia O Na- 
cional encontrei no n.° 98 de 1 de maio de 1847 a 
indicação d'um poema heroe-comico intitulado a Sal- 
danheida. N'este numero reproduz-se um fragmento 
com o titulo — Ponte Monumental — e no fim vem a 
declaração — Transcrito da «Estrela do Norte». Teria 
ficado só n'este fragmento este poema ou ter-se-hia 
publicado mais? Sào* perguntas- a que não sei res; 
ponder. 

«As indicações do jornal são as seguintes — A ponte 
monumental — Fragmento da Saldanheida (Poema he- 
roe-comico inédito) — Cesse tudo o que a antiga musa 
canta. Camões. — É em verso solto e principia assim: 

Já d'01iveira nos extensos valles 
Saldanhista clarim desperta os eccos, 
Aos magotes, aos ranchos como as cabras 
Chegando vem as invenciveis tropas; 
E ás c'ronhadas, que é meio mui cartista, 
Vão fazendo os quartéis, porque precisam 
Uns dias repousar da extensa marcha, 
Que das terras longínquas lá do Vouga, 



PORTUGUESES I57 

Onde apenas dous mezes descançaram, 
(Tanta era a pressa d'atacar o Porto) 
As trouxera t.' li com grande custo. 

Renovo aqui os meus agradecimentos por esta so- 
lícita comunicação. 

SANTARENAIDA, poema eroi-comico de Francisco 
de Paula de Figueiredo. Coimbra, 1792. 

O autor deste poema foi natural de Aveiro, for- 
mou-se em cânones na Universidade de Coimbra, e 
exerceu o ministério do púlpito no Porto. 

A Santarenaida, escrita (em ortografia sónica) aos 
24 anos de idade, nào lhe dá honra nem glória. 

O herói do poema é um taberneiro de Coimbra 
chamado José Rodrigues Santareno, grande campeão 
de Baco nas guerras de predomínio travadas entre 
este deus e Netuno. 

Sendo invencível no campo de batalha, o Santa- 
reno sucumbe, por um ardil dos seus adversários, 
depois de ter bebido imprudentemente uma tarraçada 
de água, na romaria do Espírito Santo em Santo An- 
tónio dos Olivais. 

O poema, composto em oito cantos e verso solto, 
é monótono, chega a ser cansativo, porque nào sai 
das prolongadas contendas entre Baco e Netuno, 
assunto que Alexandre António de Lima tratou com 
mais animação na Benteida. 

O único episódio de algum valor etológico é a 
descrição da romaria em Santo António dos Olivais. 



158 POEMAS HERÓI-COMICOS 

SAPATOS DE SETIM AZUL FERRETE: Poema 
heroi-comico em 6 cantos, por um Hortelão do Helicon. 
Dedicado d ex."^ sr.^ D. Isabel Bernarda Xavier de 
Moura Lafre, religiosa no convento de Santa Clara de 
Santarém — 1767. 

O autor é Joào Pedro Xavier do Monte. Veja-se o 
que dizemos a seu respeito no artigo Chumacinho 
furtado. 

Cada um dos 6 cantos compreende 50 oitavas. 

Proposição do assunto: 

De uma distincta freira e engraçada 
iMedito, e canto as raras aventuras: 
De Isabel, por qnem fora excogitada 
Decência entre a reforma, e as loucuras: 
D'essa, que por não ser mal reputada, 
E para não seguir certas verduras, 
Muitas vezes suou pelo topete, 
Por calçar de setim azul-ferrete. 

Vide Logração da Prelasia. 



T 



TABAQUINHO. 

Era o título que José Baptista Gastão \ antigo jor- 
nali^a e redactor em chefe do Diário da Câmara dos 

1 Pai de Gastão da Fonseca, a quem nos referimos sob a 
rubrica Paes (Os) da Mãe Pátria. 



PORTUGUESES 159 

Deputados, tencionava dar a um poema herói-cómicO; 
do qual apenas chegou a compor um canto. 

J. B. Gastào nascera em 1791, no sítio da Nazaré, 
e faleceu em Lisboa no ano de 1879. 

TOIROS (OS) poema heroe-comico, por António Joa- 
quim de Carvalho. Lisboa, 1796. 

Em 1825 fez-se outra ediçào, também em 8.°. 

Não deixa de causar estranheza que o seu autor, 
António Joaquim de Carvalho, o qual, se nào era alfa- 
cinha, viveu em Lisboa, onde exerceu a profissão de 
cabeleireiro e depois a de mestre de dança, ousasse 
meter a ridículo — demais a mais com graça — a pai- 
xão tauromáquica dos lisboetas. 

Bem sei que Lisboa gosta de rir, mais que a pro- 
víncia; mas parece que sempre lhe ficou algum espi- 
nho, deste poema, pois chegou até nós o boato, espa- 
lhado talvez num sentido depreciativo, de que o poe- 
ma, por ser bom, fora retocado por Curvo Semedo. 

Eu nào conheço todas as obras de Carvalho, aliás 
numerosas, mas quero crer que êle não precisou de 
auxílio estranho, a julgar pelo bom conceito em que 
o tinham Castilho e até o padre José Agostinho, que 
nos Burros lhe faz um desconto honroso na burrice 
universal. 

E António Joaquim, cantor dos Toiros, 
Cantor de Galathea, é menos Burro. 

O poema, em quatro cantos e oitava-rima, com 
uma prefação em verso solto, vale realmente como sá- 



160 POEMAS HERÓI-CÓMIDOS 

tira de costumes, descreve com exactidão e chiste as 
toiradas, defendendo a causa dos toiros contra os 
homenS; explora com felicidade o ridículo de alguns 
episódios tauromáquicos como por exemplo o do bar- 
beiro aficionado. 

Sendo bem lusitana a metrificação, nào sei porque 
suposto efeito de originalidade jocosa foi que o autor 
acentuou à francesa ^, com desprazer dos nossos ouvi- 
dos portugueses, estes dois esdrúxulos finais: 

Hum louva em décimas lânguidas, frígidas; 
Tece outro Critico Sátyras rígidas. 



V 



VIAGEM MENTAL ao templo d^Apollo em De^phos, 
poema joco-serio por um clinico que vive por milagre. 
Lisboa, 1804. 

Nunca vi exemplar algum deste poema. 

VIAGENS (AS) a Leixões, ou a troca das Nereidas; 
poema heroi-comico, offerecido ás Senhoras Portuguezas, 
especialmente ás III."'''^ e Ex."^^ Senhoras Cirnes por ***. 
Porto, 1855. 

Este poema, em 12 cantos, é de Alexandre José 

1 Refiro-me à acentuação dos decassílabos na 4.^ e na 7.^, 
muito usada pelos franceses, mas que nós estranhamos. 



PORTUGUESES 161 

da Silva de Almeida Garrett, irmào do visconde de 
Almeida Garrett. 

O autor a si mesmo se denuncia quando, no 
canto 1.°, diz invocando o auxílio de doutores que 
possam advogar a sua causa: 

E tu, Rodrigo Garrett, 

Bem sabes quão rigoroso 
É o dever que te força 

A acudir-me pressuroso. 

Refere-se ao dever filial: Rodrigo Garrett, bacha- 
rel em direito, era seu filho. 

E no último canto, pedindo que o ajudem a re- 
matar o poema, diz, referindo-se ao já entào falecido 
visconde de Almeida Garrett: 

Vem pois I .... 1 carinhoso 

Ajudar-me a terminar, 
Pois bem sabes que o rabinho 

Mais custoso é de esfolar. 

Estas citações mostram qual a métrica uniforme 
do poema, e o valor literário dele. 

Creio que Alexandre Garrett versejou por simples 
desenfado, tanto mais que a maior parte das suas pu- 
blicações foram de carácter religioso. Mas nesta acu- 
mulou facécias em linguagem solta, nào obstante a 
obra ser oferecida às Senhoras Portuguesas, especial- 
mente às Senhoras Cirnes, fidalgas do Poço das Pa- 
tas. Fá-las-ia rir? Eu sei lá! Decerto o autor nào teve 

1. Irmão. 

11 



162 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

outro fim em vista; e por modo nenhum pensaria em 
ombrear literariamente com o^Irmào, cuja superiori- 
dade reconhece no próprio poema. 

A Revista Peninsular (tom. 11, pág. 277) deu uma 
formidável tareia nas Viagens a Leixões, que classificou 
de «parto monstruoso>. Seriam da mesma opinião as 
Senhoras Cirnes, e outras ilustres patrícias minhas? Tal- 
vez não fossem. Naquele tempo, a sociedade do Porto 
vivia ainda numa simplicidade de costumes, que não 
excluía a chalaça portuguesa. As malícias claras, se fa- 
ziam rir, não ofendiam ninguém; e se chegavam a ofen- 
der, ninguém quisesse estar na pele de quem as dizia. 

O poema, cuja acção é inconsistente, e vive à 
custa de colóquios do autor com a deusa Tétis e com 
as Nereidas nos rochedos de Leixões, envolve a relan- 
ces a crítica dos costumes — das modas e bailes do 
Porto, da vida balnear nas praias de Leça e Matozi- 
nhos, dos barões de fresca data, etc. 

As notas finais, que são muitas, revelam que o 
autor tinha mais ilustração do que estro. 

VIAGENS NO SYS TEMA PLANETÁRIO, poema 
satyrico em doze cantos pelo dr. Patrocínio da Costa, 
Coimbra, Imprensa Litteraria, 1875. 

Menciono este poema, apesar de não ser propria- 
mente herói-cómico. 

Vem acompanhado de notas. 

A sátira nele desenvolvida é em grande parte ati- 
nente à organização dos estudos e ensino em Portu- 
gal, especialmente na Universidade de Coimbra. 



PORTUGUESES 163 

Percorre o autor no poema alguns dos planetas 
principais. 

Houve 2.^ ediçào das Viagens segundo se vê da 
capa de Hero e Leandro, tradução do mesmo dr. Pa- 
trocínio, feita também em Coimbra, em 1876; mas aí 
a designação de poema « satírico » foi substituída pela 
de «didáctico». 

O dr. Patrocínio da Costa, homem talentoso e 
excêntrico, regeu uma cadeira de matemática na Es- 
cola Politécnica de Lisboa. 

Quando estudante em Coimbra, fora auxiliado 
por um homem, cujo retrato conservava veneranda- 
mente na sua modesta sala de visitas já depois de ser 
professor. 

Soube, disto um estudante pouco aplicado e, por- 
que na saía havia outros retratos, informou-se com 
segurança sobre qual deles era o do antigo protector 
do lente. 

No fim do ado lectivo foi a casa do dr. Patrocí- 
nio, sendo recebido com má catadura. 

— Venho implorar a protecção de v. ex.^ 

— Ora adeus, adeus. Eu nada posso fazer em seu 
favor. Não estudou nada, não sabe nada, queixe-se de 
si mesmo. 

O rapaz, que já esperava esta reprimenda, pôs-se 
a olhar contemplativo para o retrato do protector be- 
nemérito. 

E arranjou duas lágrimas ad hoc. 

— Que tem o senhor que ver nesse retrato? 

— Estou a lembrar-me de que, se ainda fosse vivo 



154 POEMAS HERÓI-CÓMICOS 

este santo homem, que foi amigo de meu pai, ele vi- 
ria aqui pessoalmente interessar-se por mim junto 
de V. exA 

— O que está dizendo ! 

— Digo que meu pai se lhe confessava muito de- 
vedor, porque nunca deixava de atender os seus pedi- 
dos. Que êle era uma bela alma, aquele senhor. 

E apontava o retrato, soluçando. 

— Está bém, está bem. A gratidão é um senti- 
mento nobre e simpático. Vá para casa, reveja as ma- 
térias e vamos a ver o que o exame dará. 

No exame, o dr. Patrocínio amparou com geito e 
carinho o rapaz, que ficou aprovado. 

Mas o imprudente estudante contou, dias depois, 
no átrio da Escola, o modo como tinha engazupado 
o dr. Patrocínio. 

Outro aluno, que lhe ouvira a irreflectida revela- 
ção, quis recorrer ao mesmo expediente. 

Procurou em casa o professor, e contudo não se 
acautelara colhendo primeiro as devidas informa- 
ções. 

De modo que, ouvida a reprimenda, apontou para 
um retrato e disse: 

— Nesta angustiosa ocasião só poderia interceder 
por mim aquele bom homem, que eu ainda co- 
nheci. 

O dr. Patrocínio fez pé atrás e bradou : 

— Ponha-se já no olho da rua, seu impostor. Esse 
retrato é do meu avô quando tinha vinte e cinco anos. 
Eu já não cheguei a conhecê-lo. Rua, rua. 



i 



PORTUGUESES 165 

VIDA PICARESCA (Descrição da) por Diogo Ca- 
macho. 

O autor é o mesmo da Jornada às cortes do Par- 
naso (Vide Jornada) ; isto é, Diogo de Sousa, aliás Dio- 
go Camacho. 

O poema de que tratamos agora apareceu origina- 
riamente no 1.° tomo do Postilhão de Apollo, com o 
título Vida de um estudante pobre e sem nome de 
autor. É escrito em oitava-rima. Canta jovialmente, 
mas com brunido mérito literário, as amarguras e mi- 
sérias da estúrdia académica, certamente porque o 
autor as experimentou. 

No livro Cavar em ruínas, consagra Camilo Cas- 
telo Branco um artigo à Vida picaresca, de que repro- 
duz vários trechos, e, referindo-se à destragada influên- 
cia de Gôngora, pregunta se, na história da nossa lite- 
ratura, o vulto apoucado de Diogo Camacho não deve 
ser posto na vanguarda da falange que resgatou as 
boas letras, ou, quando menos; tornou amáveis a lo- 
cução lusitana e a fidalga simplicidade de António 
Ferreira e Camões. 

VISÃO (A) do heroe da Ilha das Gallinhas. Fra- 
gmento publicado na Gazeta do Povo em 1 de novem- 
bro de 1872. 

É paródia ao episódio do Adamastor. 

Duas palavras sobre o assunto: 

D. Antónia Gertrudes Pusich nasceu na Ilha de S. 
Nicolau de Cabo Verde em 1805 e faleceu na cidade 
de Lisboa em 1885. 



166 POEMAS HEROI-COMICOS 

Publicou prosa e verso; orou em público sobre 
casos políticos e questões literárias. 

Era filha de António Pusich, oficial dálmata que 
desde 1793 militou em Portugal e prestou bons ser- 
viços principalmente em Cabo Verde. 

D. Antónia, quando viúva pela segunda vez, em- 
penhou-se em fazer reconhecer o seu direito à posse 
da ilha das Galinhas, no mar da Guiné, a qual ilha 
havia sido outorgada a seu pai pelo respectivo ré- 
gulo. 

Nào lhe foi reconhecido expressamente esse direito, 
mas o governo, que era regenerador, concedeu-lhe 
uma pensão a título de indemnização pelos prejuízos 
que sofrera. 

Este facto deu origem a muitos ataques ao minis- 
tério, presidido por Fontes, e a Visão do heroe é um 
desses ataques... aliás ineficazes, porque ninguém 
pôde descobrir 

os segredos escondidos 

Desta perla gentil de Bijagoz. 

/ 

X 

XAROPE (D.) É propriamente uma sátira política, 
posto haja nela a permanência de um protagonista 
sob diversos aspectos biográficos. 

É de Cláudio José Nunes, e vem incluída no 



PORTUGUESES 167 

seu livro de versos — Scenas contemporâneas, Lis- 
boa, 1873. 

O protagonista —tanto a paíxào política cega os 
homens! — era o boníssimo Pedro Augusto Franco, 
depois 1.° conde do Restelo. 

O título alude à sua profissão de farmacêutico. 



ZELO (O) poema offerecido aos adoradores da Es- 
tupidez, por Patrício Prudente Calado. 

Avisado por Inocêncio (Dic. BibL, tom.3.°, pág. 11) 
de que na livraria de Jesus — hoje da Academia das 
Sciências — havia uma cópia deste poema, fui ali exa- 
miná-la. 

O Zelo tem 7 cantos, em sextilhas rimadas, e o seu 
fim é desafrontar a Universidade do ridículo que so- 
bre ela- lançou outro poema do mesmo género — O 
Reino da Estupidez. 

■ Transcrevo a proposição do assunto: 

Canto o zelo do Génio, a quem Minerva 
Deu a guarda da Athenas Lusitana. 
Musa minha, tu desce, tu conserva 
Em minha alma essa fúria soberana, 
Que ateaste na mente de Cervantes, 
Que tanto pede a raça dos pedantes. 



158 POEMAS HERÓI-COMICOS 

Fervia a papelada, que inspirava 
O Rancor, e Inveja a vates pobres, 
E sem rebuço impávida atacava 
Illustres almas, e talentos nobres, 
Das batinas, das becas, do Prelado 
Querendo ver o crédito offuscado. 

Teófilo Braga, no 3.° vol. da Historia da Universi- 
dade de Coimbra, fez largas transcrições deste poema 
(pág. 685 e seg.). 

Outras sátiras saíram por esse tempo com o mes- 
mo fim que O Zelo tinha em vista. 

Vide Reino da Estupidez. 



ERRATAS MAIS IMPORTANTES 



Pág. 17, em a nota, onde se lê «na Officina (sic)» deve ler-se «na 

Nfficina (sic)» 
» 23, Cabulogia, lin. 3, deve ler-se «canto V do Camões, de Gar- 
rett» 
» 34, lin. 11, onde se lê «espia» deve ler-se «cópia» 
» 39, lin. 10-11, onde se lê «Chasseseau» deve ler-se «Chás- 

serean » 
» 50, lin. 14, onde se lê «Canzarões» deve ler-se «Canzarrões» 
» 63, lin. 4, onde se lê «no Hissope» deve ler-se «no artigo 

Hissope » 
» 67, lin. 1, deve grafar-se Hyssope (O). Porque no título dos 

poemas conservamos a ortografia dos autores ou dos 

editores; acrescendo que neste caso só assim ficará 

certa a alfabetação. 
y> 67, lin. 19, onde se lê «Lecussam» deve ler-se «Lecusson» 
» 94, lin. 24, onde se lê «hazards» deve grafar-se «hasards» 
» 103, lin. 14, onde se lê «possui» deve ler-se «póssuio» 
» 114, lin. 24, onde se lê «lisonjam-no» deve ler-se «lison- 

jeiam-no» 
» 115, lin. 25, onde se lê «cisne do Vomga» deve ler-se «cisne 

do Vouga» 
» 146, lin. 19, suprima-se a última sílaba. 
» 159, lin. 15, onde se lê «algum» deve ler-se «alguma» e na 

lin. 16, onde se lê «espinho» deve ler-se «espinha» 



índice 



Págs. 

Ao LEITOR 7 

Agostinheida 9 

António Caro 12 

Balão (O) aos habitantes 

da lua 12 

Banheida.(A) 14 

Batóteida (A) 14 

Benteida . , 17 

Bisnaga escolástica ... 19 

Bolha (A) 19 

Bravo (O) forneiro via- 
jante 19 

Burros (Os) 20. 

Cabulogia (A) 23 

Cafre (O) 25 

Calouríados 26 

Calouro (O). .... . 26 

Camões em Coimbra . . 27 

Campanha (A) do ôvo. ^ 27 

Cartíada (A) 27 

Casaqueida (A) 28 

Caxorráda 29 

Ceboh'adas (Os) .... 29 



Págs. 

Cerôto (O) 29 

Chamorreida (A) . . . . ,30 

Charlatanismo (O) ... 30 

Chelaida (A) 33 

Chicote (O) 33 

Chumacinho (O) furtado. 34 

Commendas (As) .... 35 

Conquista (A) da cruz . . 39 

Correiada (A) 39 

Descida (A) de D. Miguel 
aos infernos a pedir au- 
xilio 41 

Desertor (O) 42 

Diabo Coxo (O) . . . . 44 

Dois Joões (Os) .... 44 

Douri-Vinhada 44 

Epiphaneida (A) . . . . 45 

Escolíadas 45 

Espantosas acções d'An- 

tão Broega 46 

Estoleida (A) 49 

Farfuncia (A) 49 

Festa (A) de Baldo ... 52 



172 



POEMAS HEROI-CÓMICOS 



Págs. 

Filenaida 54 

Foguetario (O). . , . . 54 

Fradalhada (A) 58 

Gaticanea 59 

Genealogia paperifera . . 62 

Graves nadas 62 

Gregoreida 63 

Herculeida (A) 65 

Hóstia (A) de oiio . . . 66 

Hyssope (O) 67 

Jantareida (A) 76 

Jericada (A) 76 

Jornada ao Douro (Uma). 80 
Jornada ás cortes do Par- 
naso 83 

Juízo (O) final e o sonho 

do inferno 85 

Lazareto (O) de Lisboa. . 85 
Lobinho (O) Philologico . 86 
Logração da prelasia re- 
gular de Santarém . . 87 
Longuinheida (A). . . . 88 
Lusa (A) bambochata . . 89 
Lusíadas (Parodias aos). . 90 
Macarronea latino-portu- 

gueza . 98 

Mal (O) da Delfina ... 100 

Malhoada (A) 101 

Máquina (A) aerostatica . 112 

Mariolada (A) 113 

Medica Palestra .... 113 

Meeting (Um) na Parvónia 1 13 

Mendicaninjachia . ... 114 

Ministrada (A) .... . 115 

Modernos (Os) Lusos . . 115 



Págs. 

Momo ........ 115 

Mondegueida 116 

Monoclea (A) 119 

Monteiropedes 121 

Murraça (A) 122 

Musicografia (A) . . . . 123 

Na cidade da Virgem . . 124 

Narigueida 126 

Niveleida (A) 126 

Padeira (A) de Aljubarrota 127 

Paes (Os) da Mãe Pátria . 128 

Palito métrico 129 

Parodia ao poema de M. 

Pinheiro Chagas ... 129 

Pena de Talião 130 

Perodana 135 

Pinheirada 137 

Poemeto heroi-comico . 139 

Polifemo e Galatea ... 140 
Portugal, Pedro, Pedrei- 

rada 140 

Pundonores (Os) desagra- 
vados 140 

Querculanaida 142 

Quixotada 144 

Raphaeleida (A) . . . . 145 
Ratos (Os) da alfandega 

de Pantana 146 

Ratos (Os) da inquisição . 148 

Reino (O) da Estupidez . 149 

Revolução (A) 151 

Roberto ou a dominação 

dos agiotas 154 

Rodrigo (D.) . . . . , 155 

Saldanheida (A) . . . . 156 



PORTUGUESES 



173 



Págs. 

Santarenaida 157 

Sapatos de setim azul fer- 
rete 158 

Tabaquinho 158 

Toiros (Os) 159 

Viagem mental ao templo 

d'Apollo em Delphos . 160 

Viagens (As) a Leixões. . 160 



Págs. 

Viagem no systema pla- 
netário 1 62 

Vida picaresca (Descrip- 

ção da) 165 

Visão (A) do heroe da Ilha' 

das Gallinhas .... 165 

Xarope (D.) 166 

Zelo (O) ...... . 167 



ACABOU DE SE IMPRIMIR 

NA TIPOGRAFIA DA «RENASCENÇA PORTUGUESA», 

RUA DOS MÁRTIRES DA LIBERDADE, 178, 

AOS 25 DE SETEMBRO DE 1922. 

PORTO. 




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Pimentel, Alberto 

Poemas her(5i-c6micos 
portugueses 



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